Vuillier além da teoria
Da experiência do Aga Khan III à leitura moderna dos cruzamentos
No primeiro artigo desta série, reconstruímos inicialmente os fundamentos da teoria de Vuillier e, em seguida, examinamos em Mumtaz Mahal um extraordinário caso histórico de aplicação de sua maneira de pensar. No terceiro artigo tratamos de Rayif, um duplo vencedor G1 contemporâneo, que cumpre com a metodolgia Vuillier moderna.
Compreendida a teoria e observada sua aplicação,
surge uma questão talvez mais interessante: como podemos aplicar hoje o
método de Vuillier?
A resposta exige separar duas coisas. Uma é estudar suas tabelas, construídas para uma população de
Puro-Sangue do início do século XX. Outra, muito diferente, é preservar seu método de raciocínio e aplicá-lo à população contemporânea.
É nessa segunda possibilidade que o programa evolui.
1. Da teoria à criação: a experiência de Aga Khan III
Por recomendação de Hall Walker, Vuillier passou a participar da avaliação genealógica de animais considerados para aquisição. Seu trabalho não consistia simplesmente em identificar pedigrees repletos de nomes prestigiosos. A preocupação era verificar quantitativamente sua composição e procurar indivíduos que apresentassem uma arquitetura genealógica considerada adequada.
Mas existe um detalhe especialmente importante. Vuillier não trabalhava sozinho. George Lambton examinava os animais sob o ponto de vista físico, enquanto Vuillier estudava sua construção genealogica. O Aga Khan III usava as duas informações.
Essa associação talvez seja tão importante quanto os próprios cálculos de Dosage. Ela mostra que, já naquela época, pedigree e indivíduo eram tratados como dimensões diferentes e complementares.
Nenhum cálculo transformava um indivíduo inadequado
em bom prospecto. Da mesma maneira, uma excelente conformação não tornava
irrelevante a estrutura genética que aquele animal carregava.
O cruzamento começava no papel, mas precisava existir no cavalo.
Mumtaz Mahal, examinada no segundo artigo, forneceu o exemplo histórico mais expressivo dessa associação entre a avaliação física de George Lambton e a análise genealógica de Vuillier. Não é necessário retornar aqui aos detalhes daquele episódio. Interessa-nos agora sua consequência metodológica: o pedigree nunca substituiu o cavalo, assim como o cavalo não tornava irrelevante a arquitetura de seu pedigree.
2. O problema de transportar suas tabelas para o PSI atual
Mais de um século separa os cavalos estudados originalmente por Vuillier da população atual. Nesse intervalo, determinados ancestrais tornaram-se praticamente universais, outros perderam importância relativa e, sobretudo, novas forças genéticas passaram a dominar a raça.
Portanto, utilizar mecanicamente as mesmas referências quantitativas de 1902 ou 1906 seria contraditório com a própria lógica que Vuillier estabeleceu.
Sua divisão dos Chefs em séries já reconhecia que a raça estava em movimento.
Uma série antiga possuía comportamento estatístico mais estabilizado. Uma série recente ainda estava se formando. Novos grandes transmissores inevitavelmente apareceriam. Se aceitarmos essa premissa, surge uma consequência lógica: uma aplicação contemporânea de Vuillier exige referências contemporâneas.
Não significa substituir arbitrariamente os antigos Chefs por garanhões famosos da atualidade. Seria necessário repetir, com os recursos disponíveis hoje, a pergunta que Vuillier fez em seu tempo:
Quais são os grandes formadores que aparecem de
maneira quantitativamente significativa na população superior contemporânea?
A resposta deveria vir da população, não de preferências pessoais.
3. Uma Vuillier moderna
É nesse sentido que utilizamos a expressão Vuillier moderna.
Não foi pretendido criar uma teoria diferente da original. Ao contrário: a intenção é transportar para o PSI contemporâneo o princípio metodológico considerado mais fértil em Vuillier.
O primeiro passo seria estabelecer uma população de referência formada por corredores de alta qualidade. A partir dela, seria possível identificar quais grandes transmissores aparecem com frequência e concentração suficientemente relevantes para serem considerados formadores da população moderna. Depois seria necessário calcular suas participações quantitativas e procurar os valores em torno dos quais essas concentrações tendem a se organizar.
Teríamos, então, algo equivalente aos antigos Dosages normais, porém recalibrado para a população atual. Somente depois disso voltaríamos ao écart.Uma matriz poderia apresentar excesso de determinada influência e deficiência de outra. Um garanhão apresentaria sua própria configuração. O interesse não estaria em saber qual deles possui isoladamente o pedigree "melhor", mas em observar o que acontece quando projetamos o estudo.
Essa continua sendo, mais de cem anos depois, uma das ideias mais poderosas de Vuillier.
4. O pedigree do produto é o
verdadeiro objeto de estudo
Esse ponto merece especial atenção.
Na criação moderna existe uma tendência compreensível de classificar garanhões: este possui pedigree melhor, aquele possui mais velocidade, outro apresenta determinada concentração desejável. Mas um cruzamento não reproduz o garanhão.Também não reproduz a matriz. Produz um terceiro pedigree.
Portanto, a pergunta realmente importante não é: "Este garanhão possui um bom pedigree?"
A pergunta é: "O que este garanhão faz com esta matriz?" ou "O que esta matriz faz com esse garanhão?"
Um reprodutor pode ser extraordinariamente interessante para determinada égua e menos adequado para outra igualmente boa. Da mesma maneira, uma matriz carregada em determinada influência pode encontrar justamente num garanhão aparentemente diferente o elemento compensatório de que seu pedigree necessita. Essa maneira de pensar desloca a análise do indivíduo para a relação entre os indivíduos.
E consideramos esse deslocamento fundamental.
5. Onde entram Varola e Roman
Um garanhão precisa produzir, seus filhos precisam correr, depois produzir, e somente com o tempo sua verdadeira importância genética torna-se evidente.
Mas o criador precisa tomar decisões antes que a História termine de classificar aquele reprodutor. É nesse espaço que é útil trabalhar com uma categoria provisória de qualidade. Um grande transmissor contemporâneo ainda não consolidado historicamente como Chef-de-Race pode ser identificado como influência qualitativa relevante, sem que isso signifique conceder-lhe antecipadamente uma classificação definitiva. Essa categoria precisa permanecer provisória.
Se posteriormente aquele garanhão for reconhecido como verdadeiro formador e receber classificação funcional adequada, a designação provisória deixa de ser necessária. O objetivo não é inflacionar a lista de Chefs, mas reconhecer um problema inevitável de qualquer metodologia aplicada em tempo real: a criação acontece no presente, enquanto a confirmação genética acontece no futuro.
7. Matemática sem determinismo
Tudo isso precisa permanece subordinado a uma limitação funcional. Dois irmãos próprios possuem exatamente o mesmo pedigree teórico. Terão, portanto, exatamente o mesmo Dosage genealógico. E podem ser cavalos completamente diferentes. A razão é evidente: pedigree representa probabilidades de transmissão, não a combinação efetiva de genes recebida por cada indivíduo.
Conformação, desenvolvimento, sanidade, ambiente, treinamento e inúmeros fatores biológicos continuarão interferindo no resultado. Por isso consideramos particularmente atual a antiga associação entre Vuillier e Lambton. Um examinava o pedigree. O outro examinava o cavalo.
Mais de cem anos depois, talvez ainda seja essa a melhor síntese.
8. Do cálculo à decisão de criação
A utilidade de uma Vuillier moderna, portanto, não estaria em produzir uma fórmula capaz de dizer qual cruzamento dará um campeão. Essa fórmula não existe.
Sua utilidade estaria em melhorar a qualidade
da decisão.
Diante de vários garanhões tecnicamente aceitáveis para uma matriz, poderíamos perguntar: qual deles corrige melhor seus desequilíbrios genealógicos? Qual preserva as concentrações que desejamos? Qual evita reforçar excessivamente aquilo que já está saturado? Qual acrescenta aquilo que está ausente?
E, paralelamente:
qual configuração funcional resulta desse acasalamento?
Somente depois dessas respostas entrariam novamente aquilo que nenhuma tabela substitui: conformação, campanha, aptidão, características físicas, compatibilidade de tipos e experiência do criador.
9. Uma teoria antiga voltada para o futuro
Talvez o aspecto mais interessante de Vuillier não esteja nos números que calculou, mas na pergunta que ensinou a fazer. Ele não perguntou simplesmente quais eram os melhores ancestrais.
Perguntou em que proporção eles apareciam nos melhores cavalos e como essas proporções poderiam orientar um acasalamento. Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a maneira de olhar um pedigree.
Mais de um século depois, possuímos bancos de
dados, computadores e capacidade estatística
que Vuillier jamais poderia imaginar.
Paradoxalmente, isso torna sua
pergunta mais investigável hoje do que em 1902.
A atualização não consiste, portanto,
em modernizar Vuillier acrescentando
complexidade à sua teoria.
Consiste em fazer novamente aquilo que ele fez: observar a população superior, identificar seus grandes formadores, medir suas influências, procurar equilíbrio e utilizar essas informações para projetar o produto antes que ele exista.
Ao fazermos isso, utilizando a população contemporânea e, paralelamente, acrescentarmos a leitura funcional desenvolvida por Varola e Roman, teremos não uma substituição de Vuillier, mas uma continuação lógica de sua ideia.
E talvez esteja justamente aí a parte mais moderna
de uma teoria concebida há mais de cem anos.
