domingo, 21 de janeiro de 2018

Roberto Grimaldi Seabra e Francisco Eduardo de Paula Machado


Dr. Roberto Grimaldi Seabra recebendo Dulce.



Dr. Francisco Eduardo de Paula Machado recebendo African Boy.


Com a idade e o passar dos anos vamos ficando carinhosos com as nossas lembranças, partindo de férias, senti vontade de prestar minhas homenagens, além de deixar esse agradecimento e o sentimento de eterna saudade a meus dois amigos e principais mestres, os sempre vivos em minha memória, dr. Roberto e dr. Francisco. 

Sem eles seguramente não existiria esse blog, afinal, lá no passado, aceitaram a convivência com um curioso jovem rapaz que descobria o mundo do turfe e passaram a compartilhar com ele conhecimentos de toda uma vida no élevage do cavalo de puro sangue de corrida; um privilégio que muito me honrou. Não tenho dúvidas que sabiam que semeavam com carinho uma semente, que, felizmente, frutificou e se manteve viva em meu âmago. 

A saudade de nossas conversas é imensamente profunda...  

Guardo comigo uma frase que ouvi do dr. Roberto Seabra diante do meu assombro de todo aquele conhecimento: 

"Tudo o que sei só me dá a certeza do quanto desconheço."

Agradeço, também, a todos que estão me acompanhando nessas postagens.





Ricardo Imbassahy


sábado, 20 de janeiro de 2018

Manduro e Shirocco



Manduro



Shirocco


O cavalo de Puro-Sangue de Corrida vêm nas ultimas 3 décadas sofrendo um intenso processo de seleção sobre raros caminhos de variabilidade genética, decorrente de uma voluntária concentração de sangue sobre basicamente 2 grandes cavalos, Northern Dancer e Mr Prospector.  No estudo da zootecnia, é sabido que a falta de opções acarreta a possibilidade de um incremento populacional de indesejada consanguinidade, podendo aproximar através da homozigose genes responsáveis por aflorar incorreções morais e morfológicas, sendo essas últimas responsáveis por inadequações funcionais. Com toda certeza não estamos afrontando o mais do que reconhecido mérito da qualidade da descendência consangüínea de Northern Dancer e/ou Mr Prospector, mas sim, reconhecendo outro aspecto também óbvio, a fragilidade de expressivo número de resultantes desses cruzamentos, indivíduos que não conseguem estrear ou que quando estréiam mancam cedo pela sua “vontade” de correr. Os elementos mais resistentes e/ou bem conduzidos por seus treinadores tanto quanto na performance comum ou quando atingem a esfera clássica em forma quase geral não conseguem avançar em sua campanha de quatro anos, demonstrando claramente que o aspecto físico não suporta o esforço exigido por sua psique.

Todos os envolvidos no universo da criação do PSI devem ter em mente que a qualidade da raça não é um aspecto inerente a apenas dois indivíduos e seus descendentes, parece ser apropriado admitir que o pool do estoque genético disponível no PSI não se limita a esses dois excepcionais chefes de raça, conseqüentemente existem outros genes capazes de produzir um grande cavalo e  apenas aguardam os cruzamentos que os façam emergir. Tal visão já começa a ser percebida, não sendo a toa, que hoje, a criação alemã tem em seus leilões elevada disputa por suas fêmeas que representam "novas" opções de linhagens, principalmente 100% saudáveis, e que com esse refrescamento se possibilite trilhar novos caminhos, para que assim seja possível o resgate da reconhecida perdida saúde de locomotores.

É também do nosso entendimento que a criação de indivíduos amparados, de lado, por famílias consistentes e provadas e, de outro, por reprodutores, mesmo de linhagens consideradas “exóticas” cuja campanha de boa qualidade tenha se prolongado além dos três anos de idade, embora resulte numa maior variedade de tipos e aptidões, abre caminho para que se perceba quão surpreendentes podem ser as combinações genéticas no puro-sangue de corrida.

Quando aparece uma mãe como Universal Rara o que se percebe é a observação de alguns, de que sendo ela uma Ramirito, um Clackson, em mãe Grimaldi, trata-se de uma eventualidade o seu surgimento. Mas, se formos mais a fundo e vermos que ela é o único elemento nascido que corresponde a cruza Ramirito-Grimaldi podemos perceber que o índice de acerto foi de 100% para o nascimento de uma mãe de inquestionável qualidade, e nessa mesma seqüência matriarcal ao vermos que Ola I Ask, outra excepcional mãe brasileira, também representa o único acasalamento de Grimaldi sobre filha Analogy, poderemos novamente termos a percepção de que o acerto desses cruzamentos pode ser tudo, como também pode representar nada... Mas, é interessante, uma reflexão sobre estatísticas e a possibilidade que a quantidade em número de cruzamentos de determinadas linhagens, tenha sido um fator determinante para que as mesmas se tornassem majoritárias e consequentemente hegemônicas, passando, assim, a serem encaradas como a única regra a ser seguida.

Os alemães Shirocco, Fam. 2, 2001, e Manduro, Fam. 3, 2002, ambos filhos do chefe-de-raça Monsun, que fizeram monta no Brasil respectivamente nos anos 2010/2011 e 2011, são dois espetaculares representantes da criação alemã e respondem 100% aos fundamentos da mesma, ou seja, saúde e durabilidade.





Manduro produziu entre nós 6,52% vencedores Black Type em apenas 92 filhos, índice realmente digno de nota.




Shirocco, em que pese ter sido corredor de exceção, apresentou 4,81%, um índice não tão notável. 


As filhas desses dois garanhões devem ser vistas na reprodução como jóias raras,  Manduro e Shirocco serviram em campos de criação da melhor qualidade do país e conseqüentemente padrearam éguas de padrão técnico excelente a nível Brasil. Com total certeza sou capaz de afirmar que eles atenderiam um aspecto da filosofia de criação do brilhante criador e conhecedor do PSI, dr. Francisco Eduardo de Paula Machado, um dos grandes entre os grandes, que era a de se trazer determinados garanhões para “formar” rebanho, sendo assim, a busca não por seus filhos e sim por suas filhas para a reprodução, como fundamento para alavancagem do pool genético do haras e daí sim se obter uma estrutura de pedigree para, enfim, se obter os cruzamentos que buscam o sucesso nas pistas. De fato, assim como o dr. Roberto Seabra, dr. Francisco Eduardo era impressionante no trato do élevage e não é a toa que construiu sob a sua batuta o estrondoso sucesso dos Haras São José & Expedictus. No caso específico de Manduro e Shirocco, ambos possibilitam a entrada de stamina aos garanhões em atividade no Brasil, a maioria respondendo em sua essência por velocidade americana, conjugada a outro aspecto fundamental, o de saúde física, além de uma bem vinda abertura de pedigrees e o conseqüente retorno do vigor híbrido, aspecto esse que qualquer estudante de primeiro período de zootecnia sabe que não pode ser desprezado.

Monsun




Transcrevo abaixo excelente artigo sobre Manduro e Shirocco escrito por Sergio Barcellos, a quem nutro profundo respeito por sua cultura e claridade em seu pensamento turfístico:


“Manduro (1.62 m), dorso longo, correu e ganhou aos 2 anos de idade na Alemanha, inclusive um Gr.III. Aos 3 anos, venceu mais duas corridas em seu país de origem (um Gr.III e uma Listed) e chegou quarto no Premio Roma (Gr.I, Roma), após o que foi transferido para a França e entregue aos cuidados de Andre Fabre. Ao final da campanha dos 3 anos, sua cotação no Timeform era de 118 libras-peso.

Aos 4 anos, na França, treinado por Fabre, atuou entre os 1.600 e os 2.100 metros, e sua cotação subiu para 123 libras. 

Naquele ano, venceu o Prix d’Harcourt (Gr. II, Longchamp). Foi, ainda, segundo no Jacques Le Marois (Gr.I, Deauville, para Librettist), no Ispahan (Gr.I, Longchamp), e no Dollar (Gr.II, Longchamp). E terceiro, no Prince of Wales’s Stakes (Gr.I, Ascot), no Ganay (Gr.I, Longchamp), no Moulin de Longchamp (Gr.I, novamente para Librettist), e no Messidor (Gr. III, Maisons-Laffitte, idem).

A notar que, aos 4 anos, das quatro últimas apresentações de Manduro em 2006 – sob a responsabilidade de Fabre -, três delas aconteceram na milha, e uma nos 1.960 metros. 

A este respeito, o Timeform registra: “Manduro tem os 2.000 metros. Corre melhor quando contido para uma partida. Precisa de um teste rigoroso na milha” (leia-se, haver trem de corrida). A opinião soa como um vaticínio (e em matéria de vaticínios, o Timeform não costuma errar...).

Aos 5 anos, o filho de Monsun permaneceu em campanha para ser considerado o “Melhor Cavalo de Idade” da Europa. Correu cinco vezes e venceu em todas elas, batendo o que havia de melhor na primeira turma do continente em seu tempo, entre França e Inglaterra. Sua cotação do Timeform subiu para 135 libras-peso (cerca de 67,5 quilos!).

É dessa época (2007) a surpreendente reverência que lhe fez Andre Fabre: “Manduro é o melhor cavalo de corridas que já treinei. 

Isso vindo de alguém que tem tido nos últimos anos, todos os anos, mais de 200 animais em sua cocheira, pertencentes aos melhores e mais afluentes proprietários do mundo, e que já venceu 21 estatísticas de treinadores na França (em seguida), tem um inusitado peso. Mas é esta a opinião de Fabre sobre o seu “alemão.”

Para Fabre, das corridas de Manduro em 2007, aos 5 anos, a melhor delas aconteceu nos 2.000 metros do Prince of Wales’s Stakes (Gr.I, Ascot), quando bateu a Dylan Thomas (Danehill e Lagrion, por Diesis) – posteriormente vencedor do King George & Queen Elizabeth Stakes (Gr. I, Ascot), e, ainda, do Prix de l’Arc du Triomphe (Gr.I, Longchamp).

Quando estava se preparando para correr o Prix de l’Arc du Triomphe de 2007, Manduro fraturou o osso da canela, foi operado (recebendo o enxerto de quatro parafusos), e encaminhado à reprodução, adquirido pelo Sheik Mohammed Al Maktoum, da Darley, que pagou por ele ao Barão Georg Von Ulmann, seu proprietário, nada menos que 23 milhões de euros(!), segundo reportado pelo Timeform.

Nada mal para um animal que custou 130 mil euros em leilão.

Manduro é mais eficiente na milha e um quarto (2.000 metros) que na milha, e ninguém pode afirmar que ele não tivesse a milha e meia, dada a facilidade com que venceu o Prix Foy (Gr. II, Longchamp), uma das provas preparatórias para o Arco do Triunfo. Não resta dúvida, que ele foi o melhor cavalo alemão em muitos anos, talvez o melhor desde Star Appeal, ganhador do Arco do Triunfo de 1975 (cotação 132).

Entre as cinco vitórias seguidas de Manduro aos 5 anos, estão: o Jacques Le Marois (Gr.I, 1.600 metros, Deauville), o Prince of Wales’s Stakes (Gr.I, 2.000 metros, Ascot), o Prix d’Ispahan (Gr.I, 1.800 metros, Longchamp), o Prix Foy (Gr.II, 2.400 metros, Longchamp), e o Earl of Sefton Stakes (Gr.III, 1.800 metros, Newmarket).

Francesco Varola, italiano, um dos maiores estudiosos do puro sangue de corridas, com vários livros escritos a respeito (alguns definitivos), comentou certa vez que a crescente consanguinidade estava contribuindo para gerar uma espécie de “vulgarização” do tipo físico do thoroughbred. 

Basta encostar na cerca de Newmarket pela manhã e ver desfilar centenas de animais diante de nossos olhos. Poucos, muito poucos, conseguem chamar a atenção do observador, se ele não conhece seus nomes.” Isso foi escrito na década de 1970. De lá para cá, o panorama só se agravou. 

Hoje, mais de 55% dos ganhadores de “pattern races” em todo o mundo descendem de Nearco, a obra-prima de Tesio. E quase todo o resto, vem de Native Dancer. Em outras palavras, de Lord Derby. Uma diminuta percentagem do turfe deste século é reservada a outras linhagens do cavalo de corrida. Os (relevantes) aspectos econômico-financeiros da indústria impedem que seja de outra forma.

Mas há determinadas criações que insistem em se manter fiéis a seus princípios. A criação alemã é exemplo disso. 

E o elegantíssimo Shirocco, é apenas o produto final de tudo que os alemães imaginam deva ser um cavalo de corrida. Alto (1,66 m), equilibrado, sadio, livre de qualquer medicação, com locomotores perfeitos, e uma rara combinação de têmpera e presença. 

Sem mencionar que seu “campo de caça” e habitat natural é a milha e meia. Nada de novo: os grandes haras alemães criam, prioritariamente, para ganhar o Derby e os grandes confrontos de peso por idade nos 2.400 metros que contam neste mundo. 

Shirocco não correu aos 2 anos de idade, e dos 3 anos em diante só atuou entre 2.200 e 2.400 metros. Talvez seja por isso que Criquette Head, com vários potros Shirocco em suas cocheiras de Chantilly, tenha aconselhado: “Antes de se pensar em corrê-los, e necessário pensar em construí-los para isso. Daí para a frente, é com eles e o decurso do tempo.  

Aos 3 anos de idade, Shirocco venceu o Derby alemão (Gr.I, Hamburgo), o GP del Jockey Club (Gr.I, Milão), e uma Listed Race preparatória para o Derby. 

Aos 4 anos, foi terceiro no Prix Foy (Gr. II, Longchamp), quarto no Prix de l’Arc du Triomphe de 2005 (Gr.I, Longchamp, para Hurricane Run), e viajou aos EUA para levantar a Breeders’ Cup Turf (Gr.I, Belmont Park, batendo a Ace e o Aga Khan Azamour).

Pelo lado paterno, ele descende de Bahram (tríplice-coroado inglês, e melhor filho de Blandford nas pistas), através da sequência Bahram - Persian Gulf – Tamerlane - Dschingis Khan – Konnigsstuhl – Monsun. Mais clássico que isso, impossível! E seu avô-materno é o alazão The Minstrel, ganhador do Derby de Epsom.

Aos 4 anos, o “rating” do Timeform para Shirocco foi de 128 libras-peso (cerca de 64 quilos). E sua melhor corrida, sem dúvida, a da Breeders’ Cup, na grama encharcada, pista que ele sempre pareceu preferir. 

Com um detalhe que Christophe Soumillon, seu jóquei naquela ocasião, aproveitou muito bem: Shirocco sempre correu a milha e meia galopando entre os da frente, mesmo considerando a presença de “faixas” nas provas que disputou. Para o Timeform, trata-se de competidor que mantém seu esforço (‘stays on’), uma vez assumida a liderança do pelotão (geralmente no início da reta).

Aos 5 anos (já foi mencionado que é uma característica desse tipo de animal melhorar com a idade), a cotação de Shirocco subiu para 129 libras (64,5 quilos), e ele venceu 3 provas de Grupo entre Inglaterra (Coronation Cup, Gr.I, Epsom, e Jockey Club Stakes, Gr.II, Newmarket), e França (Prix Foy, Gr.II).

Ao final da campanha dos 5 anos, a Darley adquiriu Shirocco e o encaminhou à reprodução. Sobre ele, e suas perspectivas na criação, resume o Timeform:

Reprodutores que, como Shirocco, têm o pedigree totalmente aberto até a quinta geração ( não há nenhuma repetição de nomes entre seus 62 primeiros ascendentes), estão se tornando raros em nossos dias...Encontrar as mães que melhor se adaptem a essa característica não parece muito difícil...Seu pai, Monsun, foi um cavalo de meia distância de alta classe, e parecia se sentir inteiramente à vontade quando a lama estava voando debaixo de seus cascos...

E conclui: “Shirocco é um cavalo forte, encorpado, e que possui uma ação poderosa e fluida (‘round action’).

Eis aí, um resumo sobre os dois alemães que estiveram por aqui, e – certamente – vão contribuir para enobrecer a criação do país (principalmente sobre o aspecto de talento feminino). 

O Timeform considera que as mães Manduro e Shirocco (leia-se, Monsun) podem muito bem ser o cruzamento ideal para os reprodutores descendentes de Northern Dancer e Mr Prospector, que hoje dominam a criação mundial. 

Desde os gregos, “a miscigenação excita o talento”, vale dizer, no caso do thoroughbred, o “vigor híbrido” tão procurado por Arthur “Bull” Hancock em sua Clairborne Farm, nos EUA, e, entre nós, pelo impecável Haras Guanabara, de Roberto e Nelson Seabra.

Agora, é esperar e ver”.



Sucesso global das linhagens alemãs:

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Gandhi di Job, Aga Khan e chover no molhado...




Tivemos nesse domingo passado a disputa, no Hipódromo de Maroñas - Uruguay, da mais importante carreira em pista de areia do hemisfério sul, o Grande Prêmio José Pedro Ramírez em 2400 metros, onde o excepcional arenático brasileiro Gandhi di Job, Fam. 4, 2013, se sagrou bicampeão nessa prova com outra vitória incontestável. Aproveitamos a proximidade desse evento para estudarmos seu resultado e pensarmos a questão inbreeding e outcross no élevage do cavalo de puro sangue de corrida, mas não para querer provar ou sustentar qualquer superioridade de um método sobre o outro, mas sim como mais um elemento de observação e análise. O nosso entendimento é que ambas estratégias de cruzamento são ferramentas que podem e devem ser utilizadas em seus momentos apropriados e cada qual apresenta seus ônus e bônus.




Ao vermos o pedigree de Gandhi di Job poderíamos, a princípio, pensarmos que a sua vitória ratifica o pensamento de que inbreeding é o único caminho correto e aceitável a ser seguido na criação do PSI, já que ele é um 4 x 4 sobre Hoist The Flag e 4 x 5 sobre Northern Dancer.

Mas ao levantarmos os pedigrees de todos os demais concorrentes dessa prova é possível observar:

2 - El Abanderado = Northern Dancer 4 x 5 e Nearctic 5 x 5,
3 - Oggigiorno = Bold Ruler 4 x 5,
4 - Legion Cat = Nijinsky 4 x 4 e Northern Dancer 4 x 4 x 5 x 5,
5 - Ben Hur = Northern Dancer 4 x 5,
6 - Gauche = Blushing Groom 3 x 4,
7 - Robinson Crusoe = Northern Dancer 4 x 5,
8 - Babyku = Outbred,
9 - Monje Negro = Outbred,
10 - Sub Mambo = Outbred,
11 - Reality Bites = Northern Dancer 5 x 5,
12 - Piscos Our = Northern Dancer 4 x 5,
13 - Like Desire = Northern Dancer 4 x 5,
14 - Descocado = Blushing Groom 3 x 4, Northern Dancer 4 x 5 e Desalmada 4 x 5,
15 - El Conde Juan = Northern Dancer 4 x 5,
16 - Old Bunch = Outbred.


Percentualmente encontramos nesse campo do Ramírez 75,00% de animais com qualquer tipo de inbreeding, 12, contra 25,00% de animais outbred, 4, o que representa uma proporção de 3 para 1, margem de magnitude avassaladora para iniciar qualquer tipo de comparação estatística. A hipótese da superioridade do inbreeding sobre o outcross, apenas considerando número de vitórias, sem confrontar outras variáveis, principalmente a enorme diferença quantitativa entre os nascimentos desses distintos tipos de cruzamento, parece ser uma interpretação simplista do todo e a insistência de seus defensores um eterno “chover no molhado”. Na seleção do PSI a busca é a de se procurar cruzar o melhor com o melhor, o que não quer dizer que a matriz tenha que ser necessariamente uma corredora de nível clássico ou semi-clássico, mas sim, pelo menos ganhadora, e filha e neta de bons pais e com as 3 primeiras mães em pleno vigor na produção de bons elementos, e sempre considerando como aspecto inegociável questões de saúde e sua possível hereditariedade, com o objetivo de se tentar minimizar ao máximo a possibilidade do surgimento de problemas que venham afetar a vida útil do indivíduo que se busca obter. 




                  Metodologia de cruzamentos na criação Aga Khan


A escolha das coberturas da criação Aga Khan segue a seguinte sistemática: Existe um Conselho Técnico formado por seus treinadores, esses com conhecimento do comportamento em pista de cada animal que esteve sob sua supervisão e veterinários que conhecem o histórico de saúde dos animais e das linhagens à disposição, a equipe dessa forma compreende de forma clara qual o tipo, as características e a natureza da matéria-prima a seu dispor e decide em primeira instância a seleção dos garanhões para cada égua, sempre observando a regra de se buscar preferencialmente cruzamentos OUTBRED, eventualmente é aceita uma proximidade máxima de consanguinidade 4 x 4, mas sendo essa somente sobre um individuo, cruzamentos 4 x 5 e 5 x 5 são também admitidos, mas sobre um máximo de dois animais; cada opção é então estudada para confirmar se atende os requisitos de dosagem estipulados dentro da criação Aga Khan, a principal atenção é quanto a não perda de parâmetros relativos a velocidade, principalmente a privilegiando por linha paterna, os resultados que indicam os melhores cruzamentos são, então, submetidos ao crivo de S.A. Aga Khan, que decide pessoalmente todos os serviços de sua criação e de sua filha, Princesse Zahra Aga Khan. Outra característica básica na seleção Aga Khan é a do contínuo descarte de éguas-matrizes, com o propósito de prevenir a exacerbação da consanguinidade no plantel.

Mas ao fim de tudo O MAIS IMPORTANTE foi a vitória do brasileiro Gandhi di Job, que com suas 6 primeiras mães também brasileiras e sendo filho/neto materno de garanhões nacionais nos deixa claro que é possível obter excelentes corredores mesmo com pedigrees supostamente "fora de moda", conforme é apregoado pelos vendedores de cavalos estrangeiros, que com o argumento de necessária modernidade conseguem manter ativo bom mercado de garanhões no Brasil para um tipo de animal com difícil aceitação em turfes de melhor qualidade técnica. O desprezo aos elementos nacionais de muito superior categoria apenas por serem brasileiros infelizmente é cultural e fortemente arraigado em nossa criação, Gandhi di Job nos dá a certeza de que o nosso bom cavalo de pistas é perfeitamente viável como garanhão e avô materno, basta que a criação nacional ofereça a eles boas condições de trabalho. O nosso pensamento de criação não é em absoluto xenófobo e sempre consideraremos bem vindos para ajudar a alavancar o estoque genético nacional animais escolhidos com critério, Royal Academy num passado próximo e Roderic O'Connor no presente, são bons exemplos de que o importado com saber funciona e funciona muito bem!



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Timeo




Timeo, Fam. 7, castanho, PR, 2006, por First American em In The Sand por Atticus de criação do Haras São José da Serra e propriedade de um condomínio, cavalo de bom tipo físico, foi um muito qualificado e versátil corredor, tendo vencido das mais importantes provas de cada idade do nosso calendário turfístico, aos 2 anos ganhou a seletiva milha da Taça de Prata, aos 3 anos venceu o Grand Criterium sobre 2000 metros, ambas as provas no hipódromo da Gávea e aos 4 anos sagrou-se campeão nos 2400 metros do GP São Paulo, importante comparação do turfe brasileiro.

Timeo no Haras São José da Serra, foto de Luiz Melao.




First American, seu pai, foi um cavalo com campanha sem maiores destaques, 13-2-1-2, seguindo a norma de sofrível para baixo padrão que responde pela imensa maioria dos garanhões importados em definitivo pelos criadores brasileiros, sua principal vitória foi obtida no Flamingo Stakes, 1800 m, D, (G3), uma segunda colocação no Clark Handicap, 1800 m, D, (G2) e um terceiro no Indiana Derby, 1700 m, D, (G3) seus outros melhores resultados.  Como reprodutor foi uma grata surpresa, seus filhos ganharam em toda e qualquer distância, dos 1000 aos 3000 metros, independente do tipo de pista, produziu 12 vencedores de grupo, com um expressivo índice de 8,16% Black Type, trata-se de um filho de Quiet American e tem como avô paterno a Fappiano, semental que apresenta muito bom resultado no Brasil como assim o demonstram seus filhos Roy e Signal Tap, que também foram destacados reprodutores entre nós. First American, além de Timeo, de longe seu melhor produto, produziu os vencedores de G1, Uncle Tom (GP ABCPCC – Gávea), That Sunday (GP Zélia Gonzaga Peixoto de Castro), Cores do Brasil (GP Margarida Polak Lara – Taça de Prata), Outplay (GP Ipiranga) e Ancona (Polla de Potrancas – Uruguay), mais outros vencedores e colocados em G2 e G3, além de colocados em G1, onde destacam-se American Style, Cônsul Americano, First Amour e Jardim di Napoli. Como avô materno já se destaca através do múltiplo ganhador de G1, Braço Forte (Manduro) e Silence is Gold (GP Margarida Polak Lara – Taça de Prata) por Agnes Gold. 

First American



Sua mãe In The Sand foi ganhadora e está se apresentando como um muito bom ventre, pois além de Timeo já produziu Anakin (GP 16 de Julho, G1) e Bom Gosto (GP Almirante Marquês de Tamandaré, G2), trata-se de uma filha de Sandhill (GP João Adhemar e Nelson de Almeida Prado, G3). Sand Dancer, a quarta mãe de Timeo, fundou um ramo materno vigoroso com frequente produção de elementos clássicos, nos apresentando o craque Sandpit, “Champion 3y-old” na Gávea, tendo vencido o GP Cruzeiro do Sul, GP Linneo de Paula Machado,  GP Francisco E. P. Machado – Taça de Ouro, Copa ANPC, Oak Tree Invitational Stakes, Caesar’s International Handicap (2x), San Luis Rey Stakes, Hollywood Turf Handicap, todas provas de G1 e inúmeras colocações em G1,G2 e G3, somando um total de US$ 3.774,204 em prêmios, Brunnhilde (GP Diana, G1; GP Duque de Caxias, G2 e GP Oswaldo Aranha, G3), Italiana in Algeri (2. GP Henrique de Toledo Lara, G3 e 4. GP João Adhemar e Nelson de Almeida Prado, G3), Tsonga (GP Conde de Herzberg, G2), River Tiete (4. GP João Borges Filho, G2 e 4. GP Antonio Joaquim Peixoto de Castro, G2) mais úteis ganhadores, onde pode-se destacar Tiger Motion, bom vencedor no Japão.

Timeo é neto materno de Atticus, um parelheiro de interessante classe que abordou com sucesso distâncias dos 1300 aos 1800 metros não escolhendo raia, demonstrou precocidade ao se sair vencedor aos dois anos, em 18 partidas obteve 7-3-1, tendo vencido o Oaklawn Handicap, 1800 m, D, G1; Arcadia Handicap, 1600 m, G, G2, nessa prova quebrou o recorde mundial para os 1600 m marcando o tempo de 1.31.89; Kentucky Cup Classic, 1800 m, D, G3; Prix de Fontainebleau, 1600 m, G, G3; 2. Poule d’Essai des Poulains, 1600 m, G, G1 e 3. Shoemaker Breeder’s Cup Mile, G, G3, foram seus principais resultados. Atticus sem maior destaque na reprodução dentro da esfera clássica é pai de ganhadores com mais de US$ 14.000.000,00 em prêmios, seus melhores filhos são High Fly (G1) e os G3 Atticus Kristy e Can’t Beat It, como avô materno Atticus vêm se apresentando melhor que como pai, além de Timeo e Anakin possui mais 3 outros netos vencedores de grupo 1 nos EUA.

Timeo em sua vitória no GP São Paulo.




                                              Campanha 


2 anos

2. Prêmio Schahriar, 1500 m, AB, Gávea,
1. Prêmio Northern Pan, 1600 m, AB, Gávea,
2. Seletiva GP J. Adhemar de Almeida Prado – Taça de Prata, 1600 m, GB, Gávea,
1.Grande Prêmio J. Adhemar de Almeida Prado – Taça de Prata, G1, 1600 m, GP, Gávea,

3 anos

4. Grande Prêmio Ipiranga ***, G1, 1600 m, GP, Cidade Jardim,
1. Grande Prêmio Linneo de Paula Machado – Grand Criterium, G1, 2000 m, GP, Gávea,
2. Grande Prêmio Derby Paulista ***, G1, 2400 m, GF, Cidade Jardim,
4. Grande Prêmio Estado do Rio de Janeiro ***, G1, 1600 m, GM, Gávea,
6. Grande Prêmio Francisco Eduardo de Paula Machado ***, G1, 2000 m, GP, Gávea,
2. Grande Prêmio Cruzeiro do Sul – Derby brasileiro ***, G1, 2400 m, GB, Gávea,
10. Grande Prêmio São Paulo, G1, 2400 metros, GM, Cidade Jardim,

4 anos

5. Grande Prêmio Brasil, G1, 2400 m, GM, Gávea,
2. Prova Especial Falcon Jet, 2000 m, GM, Gávea,
1. Grande Prêmio Presidente Arthur da Costa e Silva, G3, 2000 m, GB, Gávea,
1. Grande Prêmio São Paulo, G1, 2400 m, GF, Cidade Jardim.


Timeo com apenas duas gerações de 17 produtos em idade de corrida apresenta 41,71% de ganhadores, 6 de 10 corridos (60% ganhador sobre animais corridos é um índice altamente expressivo que deve ser levado em consideração) e um elemento já vencedor de grupo, a destacada iniciante Tantiny, 1. GP Luiz Fernando Cirne Lima, G3, 1400 m; 4. GP Carlos Gilberto e Carlos Telles da Rocha Faria, G2, 2000 m; 5. GP Francisco Villela de Paula Machado, G2, 1600 m e 5. GP Adayr Eyras de Araújo, G3, 1500 m.

Tantiny sinaliza que muito possivelmente Timeo repetirá seu pai First American e tal como ele necessitará trabalhar sobre éguas de linhagens que transmitam velocidade, Mr Prospector, Bold Ruler, Lyphard e Icecapade são cruzamentos interessantes entre outras possibilidades que possuam brilhantismo, podemos pensar em filhas de Northern Afleet, Que Fenômeno, Blade Prospector, É do Sul, Mensageiro Alado, Desejado Thunder, mais na frente High Chris e Kris Five... Poker Face, Tônemaí e Universal Law. Acreditamos que caso Timeo receba as devidas oportunidades que sua excepcional campanha e régio pedigree merecem ele responderá com destaque na criação brasileira e se transformará num digno continuador de seu pai First American, Timeo é uma bela oportunidade para se tentar com plena possibilidade iniciar uma linha nacional de Fappiano.

Somente num cenário turfístico caótico e sem qualquer paradigma técnico como o brasileiro um animal com a qualidade de Timeo fica sem servir NENHUMA égua nas temporadas de 2014, 2015 e 2016. Esperamos que com o surgimento de Tantiny e o lamentável falecimento de First American a criação nacional passe a o olhar com justos olhos.                                                                                                                                                                                                               TIMEO, "VISÍVEL APENAS PARA AQUELES QUE SABEM ONDE OLHAR."






terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Dois pra lá, Dois pra cá

Vencedores dos últimos 5 GPs Cruzeiro do Sul - Derby brasileiro, 2400 metros, grama. Hipódromo da Gávea.

                                                2017 - Emperor Roderic

                                                                                                                                 4 x 5 Mr Prospector

Obs. À luz do Melhoramento Genético dos Animais Domésticos Emperor Roderic apenas apresenta inbreeding sobre Mr. Prospector, já que a passagem em Northern Dancer é por seu pai Roderic O'Connor, como Lady Carol não é emparentada com Northern Dancer não existe através dela consanguinidade para esse cavalo. A definição científica ampla é que a consanguinidade é o acasalamento de indivíduos cujo parentesco entre si é maior do que o parentesco médio da população considerada.


2016 - Daffy Girl

                                                                                                                                                          4 x 4 Northern Dancer e 4 x 5 x 5 Nearctic                                           


          2015 - Famous Acteon



5 x 5 Northern Dancer


2014 - Bal a Bali

                                                                                                                                
4 x 4 Gonfalon


2013 - Mojito

                                                                                                                           Outbred
    

O que isso tudo acima quer provar? Absolutamente nada, assim como as demonstrações de pedigrees de animais altamente consanguíneos não provam nada, a hoje existente maior concentração de endogamia no turfe quando comparada ao passado cabe a concepções diversas na condução atual da atividade. Evidentemente como o universo de animais altamente endógamos a poucos indivíduos é infinitamente superior aos que levam linhagens "exóticas" e/ou pouco consanguíneas sempre haverá uma maior possibilidade estatística de seu sucesso nas pistas. O único que se pode afirmar cientificamente é que indivíduos exógamos ou o quanto menos emparentados tendem a serem mais saudáveis e rústicos que indivíduos endógamos, o que vulgarmente é conhecido no meio pecuário e agrícola como "vigor híbrido". 


Pensamentos de dois fundamentais na história do turfe:  


1. "Buono con buono fa buono. Cattivo con cattivo fa cattivo. Buono con cattivo fa mezzo e mezzo." Frederico Tesio.

2. "Donnez-moi sang et j'élève un champion dans la Place Vendôme." Marcel Boussac.


O que parece não mais caber discussão no pensamento da criação é sobre a qualidade do pai e avô materno somadas a utilização de linhagens ventrais que se sustentam no vigor quanto a produção de classicismo, como exemplo tupiniquim a, hoje, mais evidente é a iniciada pela notável mãe TAVIRA, o demais é o tempero da atividade.

Não devemos ser contra ou a favor do inbreeding ou outcross, cada caso é um caso e deve ser analisado como tal, o que deve-se ter em mente é a busca do animal saudável e se ter plena consciência que para essa busca o inbreeding é uma ferramenta extremamente válida mas que deve ser praticada com bastante critério, pois a homozigose tanto pode trazer os genes desejáveis como os indesejáveis, não existe nenhum ser vivo que seja portador unicamente de genes desejáveis... O que não quer dizer, que se um cruzamento for praticado sobre animais não emparentados mas portadores das mesmas taras genéticas que a chance dessas taras virem a tona no produto possa ser desprezada. Seguramente que na incerteza da transmissão o outcross é uma ferramenta mais confiável para se conseguir indivíduos de melhor saúde e vigor.  

Considero ao capuano Hyperio como o exemplo de pedigree mais "race" que conheci, um 3 x 3 em Pharos através de Pharis e Nearco sobre Tourbillon e Hyperion somados a uma linha materna consistente e por um mensageiro de primeira qualidade, Amphis. Existe algo melhor?

# Uma curiosidade, o grande criador Marcel Boussac sempre é citado como exemplo quando se quer defender a prática da elevada consanguinidade no PSI, mas se estudarmos o pedigree de seus principais ganhadores, Pharis, Tourbillon, Marsyas, Caracalla, Djebel, Goya, Coaraze, Corejada, Corrida, Priam, Sandjar, Scratch, Galcador, Ardan, Ambiorix, Jock, Elpenor etc, veremos que a história não é bem assim. Inclusive seu último derby-winner Acamas era pouquíssimo consanguíneo. # 

Como na belíssima música de João Bosco e Aldir Blanc imortalizada na voz de Elis Regina: São dois pra lá, Dois pra cá...