sábado, 20 de janeiro de 2018

Manduro e Shirocco



Manduro, fam. 3-d.



Shirocco, fam. 2-e.


O cavalo de Puro-Sangue de Corrida vêm nas ultimas 3 décadas sofrendo um intenso processo de seleção sobre raros caminhos de variabilidade genética, decorrente de uma voluntária concentração de sangue sobre basicamente 2 grandes cavalos, Northern Dancer e Mr Prospector.  No estudo da zootecnia, é sabido que a falta de opções acarreta a possibilidade de um incremento populacional de indesejada consanguinidade, podendo aproximar através da homozigose genes responsáveis por aflorar incorreções morais e morfológicas, sendo essas últimas responsáveis por inadequações funcionais. Com toda certeza não estamos afrontando o mais do que reconhecido mérito da qualidade da descendência consangüínea de Northern Dancer e/ou Mr Prospector.  Mas sim, reconhecendo outro aspecto também óbvio, a fragilidade de expressivo número de resultantes desses cruzamentos, indivíduos que não conseguem estrear ou que quando estréiam mancam cedo pela sua “vontade” de correr. Os elementos mais resistentes e/ou bem conduzidos por seus treinadores tanto quanto na performance comum ou quando atingem a esfera clássica em forma quase geral não conseguem avançar em sua campanha de quatro anos, demonstrando claramente que o aspecto físico não suporta o esforço exigido por sua psique.

Todos os envolvidos no universo da criação do PSI devem ter em mente que a qualidade da raça não é um aspecto inerente a apenas dois indivíduos e seus descendentes, parece ser apropriado admitir que o pool do estoque genético disponível no PSI não se limita a esses dois excepcionais chefes de raça, conseqüentemente existem outros genes capazes de produzir um grande cavalo e  apenas aguardam os cruzamentos que os façam emergir. Tal visão já começa a ser percebida, não sendo a toa, que hoje, a criação alemã tem em seus leilões elevada disputa por suas fêmeas que representam "novas" opções de linhagens, principalmente 100% saudáveis, e que com esse refrescamento se possibilite trilhar novos caminhos, para que assim seja possível o resgate da reconhecida perdida saúde de locomotores.

É também do nosso entendimento que a criação de indivíduos amparados, de lado, por famílias consistentes e provadas e, de outro, por reprodutores, mesmo de linhagens consideradas “exóticas” cuja campanha de boa qualidade tenha se prolongado além dos três anos de idade, embora resulte numa maior variedade de tipos e aptidões, abre caminho para que se perceba quão surpreendentes podem ser as combinações genéticas no puro-sangue de corrida.

Quando aparece uma mãe como Universal Rara o que se percebe é a observação de alguns, de que sendo ela uma Ramirito, um Clackson, em mãe Grimaldi, trata-se de uma eventualidade o seu surgimento. Mas, se formos mais a fundo e vermos que ela é o único elemento nascido que corresponde a cruza Ramirito-Grimaldi podemos perceber que o índice de acerto foi de 100% para o nascimento de uma mãe de inquestionável qualidade, e nessa mesma seqüência matriarcal ao vermos que Ola I Ask, outra excepcional mãe brasileira, também representa o único acasalamento de Grimaldi sobre filha Analogy, poderemos novamente termos a percepção de que o acerto desses cruzamentos pode ser tudo, como também pode representar nada... Mas, é interessante, uma reflexão sobre estatísticas e a possibilidade que a quantidade em número de cruzamentos de determinadas linhagens, tenha sido um fator determinante para que as mesmas se tornassem majoritárias e consequentemente hegemônicas, passando, assim, a serem encaradas como a única regra a ser seguida.

Os alemães Shirocco, Fam. 2-e, 2001, e Manduro, Fam. 3-d, 2002, ambos filhos do chefe-de-raça Monsun, que fizeram monta no Brasil respectivamente nos anos 2010/2011 e 2011, são dois espetaculares representantes da criação alemã e respondem 100% aos fundamentos da mesma, ou seja, saúde e durabilidade.





Manduro produziu entre nós 6,52% vencedores Black Type em apenas 92 filhos, índice realmente digno de nota.




Shirocco, em que pese ter sido corredor de exceção, apresentou 4,81%, um índice não tão notável. 


As filhas desses dois garanhões devem ser vistas na reprodução como jóias raras,  Manduro e Shirocco serviram em campos de criação da melhor qualidade do país e conseqüentemente padrearam éguas de padrão técnico excelente a nível Brasil. Com total certeza sou capaz de afirmar que eles atenderiam um aspecto da filosofia de criação do brilhante criador e conhecedor do PSI, dr. Francisco Eduardo de Paula Machado, um dos grandes entre os grandes, que era a de se trazer determinados garanhões para “formar” rebanho, sendo assim, a busca não por seus filhos e sim por suas filhas para a reprodução, como fundamento para alavancagem do pool genético do haras e daí sim se obter uma estrutura de pedigree para, enfim, se obter os cruzamentos que buscam o sucesso nas pistas. De fato, assim como o dr. Roberto Seabra, dr. Francisco Eduardo era impressionante no trato do élevage e não é a toa que construiu sob a sua batuta o estrondoso sucesso dos Haras São José & Expedictus. No caso específico de Manduro e Shirocco, ambos possibilitam a entrada de stamina aos garanhões em atividade no Brasil, a maioria respondendo em sua essência por velocidade americana, conjugada a outro aspecto fundamental, o de saúde física, além de uma bem vinda abertura de pedigrees e o conseqüente retorno do vigor híbrido, aspecto esse que qualquer estudante de primeiro período de zootecnia sabe que não pode ser desprezado.



Monsun.



Transcrevo abaixo excelente artigo sobre Manduro e Shirocco escrito por Sergio Barcellos, a quem nutro profundo respeito por sua cultura e claridade em seu pensamento turfístico:


“Manduro (1.62 m), dorso longo, correu e ganhou aos 2 anos de idade na Alemanha, inclusive um Gr.III. Aos 3 anos, venceu mais duas corridas em seu país de origem (um Gr.III e uma Listed) e chegou quarto no Premio Roma (Gr.I, Roma), após o que foi transferido para a França e entregue aos cuidados de Andre Fabre. Ao final da campanha dos 3 anos, sua cotação no Timeform era de 118 libras-peso.

Aos 4 anos, na França, treinado por Fabre, atuou entre os 1.600 e os 2.100 metros, e sua cotação subiu para 123 libras. 

Naquele ano, venceu o Prix d’Harcourt (Gr. II, Longchamp). Foi, ainda, segundo no Jacques Le Marois (Gr.I, Deauville, para Librettist), no Ispahan (Gr.I, Longchamp), e no Dollar (Gr.II, Longchamp). E terceiro, no Prince of Wales’s Stakes (Gr.I, Ascot), no Ganay (Gr.I, Longchamp), no Moulin de Longchamp (Gr.I, novamente para Librettist), e no Messidor (Gr. III, Maisons-Laffitte, idem).

A notar que, aos 4 anos, das quatro últimas apresentações de Manduro em 2006 – sob a responsabilidade de Fabre -, três delas aconteceram na milha, e uma nos 1.960 metros. 

A este respeito, o Timeform registra: “Manduro tem os 2.000 metros. Corre melhor quando contido para uma partida. Precisa de um teste rigoroso na milha” (leia-se, haver trem de corrida). A opinião soa como um vaticínio (e em matéria de vaticínios, o Timeform não costuma errar...).

Aos 5 anos, o filho de Monsun permaneceu em campanha para ser considerado o “Melhor Cavalo de Idade” da Europa. Correu cinco vezes e venceu em todas elas, batendo o que havia de melhor na primeira turma do continente em seu tempo, entre França e Inglaterra. Sua cotação do Timeform subiu para 135 libras-peso (cerca de 67,5 quilos!).

É dessa época (2007) a surpreendente reverência que lhe fez Andre Fabre: “Manduro é o melhor cavalo de corridas que já treinei. 

Isso vindo de alguém que tem tido nos últimos anos, todos os anos, mais de 200 animais em sua cocheira, pertencentes aos melhores e mais afluentes proprietários do mundo, e que já venceu 21 estatísticas de treinadores na França (em seguida), tem um inusitado peso. Mas é esta a opinião de Fabre sobre o seu “alemão.”

Para Fabre, das corridas de Manduro em 2007, aos 5 anos, a melhor delas aconteceu nos 2.000 metros do Prince of Wales’s Stakes (Gr.I, Ascot), quando bateu a Dylan Thomas (Danehill e Lagrion, por Diesis) – posteriormente vencedor do King George & Queen Elizabeth Stakes (Gr. I, Ascot), e, ainda, do Prix de l’Arc du Triomphe (Gr.I, Longchamp).

Quando estava se preparando para correr o Prix de l’Arc du Triomphe de 2007, Manduro fraturou o osso da canela, foi operado (recebendo o enxerto de quatro parafusos), e encaminhado à reprodução, adquirido pelo Sheik Mohammed Al Maktoum, da Darley, que pagou por ele ao Barão Georg Von Ulmann, seu proprietário, nada menos que 23 milhões de euros(!), segundo reportado pelo Timeform.

Nada mal para um animal que custou 130 mil euros em leilão.

Manduro é mais eficiente na milha e um quarto (2.000 metros) que na milha, e ninguém pode afirmar que ele não tivesse a milha e meia, dada a facilidade com que venceu o Prix Foy (Gr. II, Longchamp), uma das provas preparatórias para o Arco do Triunfo. Não resta dúvida, que ele foi o melhor cavalo alemão em muitos anos, talvez o melhor desde Star Appeal, ganhador do Arco do Triunfo de 1975 (cotação 132).

Entre as cinco vitórias seguidas de Manduro aos 5 anos, estão: o Jacques Le Marois (Gr.I, 1.600 metros, Deauville), o Prince of Wales’s Stakes (Gr.I, 2.000 metros, Ascot), o Prix d’Ispahan (Gr.I, 1.800 metros, Longchamp), o Prix Foy (Gr.II, 2.400 metros, Longchamp), e o Earl of Sefton Stakes (Gr.III, 1.800 metros, Newmarket).

Francesco Varola, italiano, um dos maiores estudiosos do puro sangue de corridas, com vários livros escritos a respeito (alguns definitivos), comentou certa vez que a crescente consanguinidade estava contribuindo para gerar uma espécie de “vulgarização” do tipo físico do thoroughbred. 

Basta encostar na cerca de Newmarket pela manhã e ver desfilar centenas de animais diante de nossos olhos. Poucos, muito poucos, conseguem chamar a atenção do observador, se ele não conhece seus nomes.” Isso foi escrito na década de 1970. De lá para cá, o panorama só se agravou. 

Hoje, mais de 55% dos ganhadores de “pattern races” em todo o mundo descendem de Nearco, a obra-prima de Tesio. E quase todo o resto, vem de Native Dancer. Em outras palavras, de Lord Derby. Uma diminuta percentagem do turfe deste século é reservada a outras linhagens do cavalo de corrida. Os (relevantes) aspectos econômico-financeiros da indústria impedem que seja de outra forma.

Mas há determinadas criações que insistem em se manter fiéis a seus princípios. A criação alemã é exemplo disso. 

E o elegantíssimo Shirocco, é apenas o produto final de tudo que os alemães imaginam deva ser um cavalo de corrida. Alto (1,66 m), equilibrado, sadio, livre de qualquer medicação, com locomotores perfeitos, e uma rara combinação de têmpera e presença. 

Sem mencionar que seu “campo de caça” e habitat natural é a milha e meia. Nada de novo: os grandes haras alemães criam, prioritariamente, para ganhar o Derby e os grandes confrontos de peso por idade nos 2.400 metros que contam neste mundo. 

Shirocco não correu aos 2 anos de idade, e dos 3 anos em diante só atuou entre 2.200 e 2.400 metros. Talvez seja por isso que Criquette Head, com vários potros Shirocco em suas cocheiras de Chantilly, tenha aconselhado: “Antes de se pensar em corrê-los, e necessário pensar em construí-los para isso. Daí para a frente, é com eles e o decurso do tempo.  

Aos 3 anos de idade, Shirocco venceu o Derby alemão (Gr.I, Hamburgo), o GP del Jockey Club (Gr.I, Milão), e uma Listed Race preparatória para o Derby. 

Aos 4 anos, foi terceiro no Prix Foy (Gr. II, Longchamp), quarto no Prix de l’Arc du Triomphe de 2005 (Gr.I, Longchamp, para Hurricane Run), e viajou aos EUA para levantar a Breeders’ Cup Turf (Gr.I, Belmont Park, batendo a Ace e o Aga Khan Azamour).

Pelo lado paterno, ele descende de Bahram (tríplice-coroado inglês, e melhor filho de Blandford nas pistas), através da sequência Bahram - Persian Gulf – Tamerlane - Dschingis Khan – Konnigsstuhl – Monsun. Mais clássico que isso, impossível! E seu avô-materno é o alazão The Minstrel, ganhador do Derby de Epsom.

Aos 4 anos, o “rating” do Timeform para Shirocco foi de 128 libras-peso (cerca de 64 quilos). E sua melhor corrida, sem dúvida, a da Breeders’ Cup, na grama encharcada, pista que ele sempre pareceu preferir. 

Com um detalhe que Christophe Soumillon, seu jóquei naquela ocasião, aproveitou muito bem: Shirocco sempre correu a milha e meia galopando entre os da frente, mesmo considerando a presença de “faixas” nas provas que disputou. Para o Timeform, trata-se de competidor que mantém seu esforço (‘stays on’), uma vez assumida a liderança do pelotão (geralmente no início da reta).

Aos 5 anos (já foi mencionado que é uma característica desse tipo de animal melhorar com a idade), a cotação de Shirocco subiu para 129 libras (64,5 quilos), e ele venceu 3 provas de Grupo entre Inglaterra (Coronation Cup, Gr.I, Epsom, e Jockey Club Stakes, Gr.II, Newmarket), e França (Prix Foy, Gr.II).

Ao final da campanha dos 5 anos, a Darley adquiriu Shirocco e o encaminhou à reprodução. Sobre ele, e suas perspectivas na criação, resume o Timeform:

Reprodutores que, como Shirocco, têm o pedigree totalmente aberto até a quinta geração ( não há nenhuma repetição de nomes entre seus 62 primeiros ascendentes), estão se tornando raros em nossos dias...Encontrar as mães que melhor se adaptem a essa característica não parece muito difícil...Seu pai, Monsun, foi um cavalo de meia distância de alta classe, e parecia se sentir inteiramente à vontade quando a lama estava voando debaixo de seus cascos...

E conclui: “Shirocco é um cavalo forte, encorpado, e que possui uma ação poderosa e fluida (‘round action’).

Eis aí, um resumo sobre os dois alemães que estiveram por aqui, e – certamente – vão contribuir para enobrecer a criação do país (principalmente sobre o aspecto de talento feminino). 

O Timeform considera que as mães Manduro e Shirocco (leia-se, Monsun) podem muito bem ser o cruzamento ideal para os reprodutores descendentes de Northern Dancer e Mr Prospector, que hoje dominam a criação mundial. 

Desde os gregos, “a miscigenação excita o talento”, vale dizer, no caso do thoroughbred, o “vigor híbrido” tão procurado por Arthur “Bull” Hancock em sua Clairborne Farm, nos EUA, e, entre nós, pelo impecável Haras Guanabara, de Roberto e Nelson Seabra.

Agora, é esperar e ver”.



Sucesso global das linhagens alemãs: