quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Gandhi di Job, Aga Khan e chover no molhado...




Tivemos nesse domingo passado a disputa, no Hipódromo de Maroñas - Uruguay, da mais importante carreira em pista de areia do hemisfério sul, o Grande Prêmio José Pedro Ramírez em 2400 metros, onde o excepcional arenático brasileiro Gandhi di Job, Fam. 4, 2013, se sagrou bicampeão nessa prova com outra vitória incontestável. Aproveitamos a proximidade desse evento para estudarmos seu resultado e pensarmos a questão inbreeding e outcross no élevage do cavalo de puro sangue de corrida, mas não para querer provar ou sustentar qualquer superioridade de um método sobre o outro, mas sim como mais um elemento de observação e análise. O nosso entendimento é que ambas estratégias de cruzamento são ferramentas que podem e devem ser utilizadas em seus momentos apropriados e cada qual apresenta seus ônus e bônus.




Ao vermos o pedigree de Gandhi di Job, fam. 4-c, poderíamos, a princípio, pensarmos que a sua vitória ratifica o pensamento de que inbreeding é o único caminho correto e aceitável a ser seguido na criação do PSI, já que ele é um 4 x 4 sobre Hoist The Flag e 4 x 5 sobre Northern Dancer.

Mas ao levantarmos os pedigrees de todos os demais concorrentes dessa prova é possível observar:

2 - El Abanderado = Northern Dancer 4 x 5 e Nearctic 5 x 5,
3 - Oggigiorno = Bold Ruler 4 x 5,
4 - Legion Cat = Nijinsky 4 x 4 e Northern Dancer 4 x 4 x 5 x 5,
5 - Ben Hur = Northern Dancer 4 x 5,
6 - Gauche = Blushing Groom 3 x 4,
7 - Robinson Crusoe = Northern Dancer 4 x 5,
8 - Babyku = Outbred,
9 - Monje Negro = Outbred,
10 - Sub Mambo = Outbred,
11 - Reality Bites = Northern Dancer 5 x 5,
12 - Piscos Our = Northern Dancer 4 x 5,
13 - Like Desire = Northern Dancer 4 x 5,
14 - Descocado = Blushing Groom 3 x 4, Northern Dancer 4 x 5 e Desalmada 4 x 5,
15 - El Conde Juan = Northern Dancer 4 x 5,
16 - Old Bunch = Outbred.


Percentualmente encontramos nesse campo do Ramírez 75,00% de animais com qualquer tipo de inbreeding, 12, contra 25,00% de animais outbred, 4, o que representa uma proporção de 3 para 1, margem de magnitude avassaladora para iniciar qualquer tipo de comparação estatística. A hipótese da superioridade do inbreeding sobre o outcross, apenas considerando número de vitórias, sem confrontar outras variáveis, principalmente a enorme diferença quantitativa entre os nascimentos desses distintos tipos de cruzamento, parece ser uma interpretação simplista do todo e a insistência de seus defensores um eterno “chover no molhado”. Na seleção do PSI a busca é a de se procurar cruzar o melhor com o melhor, o que não quer dizer que a matriz tenha que ser necessariamente uma corredora de nível clássico ou semi-clássico, mas sim, pelo menos ganhadora, e filha e neta de bons pais e com as 3 primeiras mães em pleno vigor na produção de bons elementos, e sempre considerando como aspecto inegociável questões de saúde e sua possível hereditariedade, com o objetivo de se tentar minimizar ao máximo a possibilidade do surgimento de problemas que venham afetar a vida útil do indivíduo que se busca obter. 




                  Metodologia de cruzamentos na criação Aga Khan


A escolha das coberturas da criação Aga Khan segue a seguinte sistemática: Existe um Conselho Técnico formado por seus treinadores, esses com conhecimento do comportamento em pista de cada animal que esteve sob sua supervisão e veterinários que conhecem o histórico de saúde dos animais e das linhagens à disposição, a equipe dessa forma compreende de forma clara qual o tipo, as características e a natureza da matéria-prima a seu dispor e decide em primeira instância a seleção dos garanhões para cada égua, sempre observando a regra de se buscar preferencialmente cruzamentos OUTBRED, eventualmente é aceita uma proximidade máxima de consanguinidade 4 x 4, mas sendo essa somente sobre um individuo, cruzamentos 4 x 5 e 5 x 5 são também admitidos, mas sobre um máximo de dois animais; cada opção é então estudada para confirmar se atende os requisitos de dosagem estipulados dentro da criação Aga Khan, a principal atenção é quanto a não perda de parâmetros relativos a velocidade, principalmente a privilegiando por linha paterna, os resultados que indicam os melhores cruzamentos são, então, submetidos ao crivo de S.A. Aga Khan IV, que decide pessoalmente todos os serviços de sua criação e de sua filha, Princesse Zahra Aga Khan. Outra característica básica na seleção Aga Khan é a do contínuo descarte de éguas-matrizes, com o propósito de prevenir a exacerbação da consanguinidade no plantel.

Mas ao fim de tudo O MAIS IMPORTANTE foi a vitória do brasileiro Gandhi di Job, que com suas 6 primeiras mães também brasileiras e sendo filho/neto materno de garanhões nacionais nos deixa claro que é possível obter excelentes corredores mesmo com pedigrees supostamente "fora de moda", conforme é apregoado pelos vendedores de cavalos estrangeiros, que com o argumento de necessária modernidade conseguem manter ativo bom mercado de garanhões no Brasil para um tipo de animal com difícil aceitação em qualquer outro turfe mundial. O desprezo aos elementos nacionais de muito superior categoria apenas por serem brasileiros infelizmente é cultural e fortemente arraigado em nossa criação, Gandhi di Job nos dá a certeza de que o nosso bom cavalo de pistas é perfeitamente viável como garanhão e avô materno, basta que a criação nacional ofereça a eles boas condições de trabalho. O nosso pensamento de criação não é em absoluto xenófobo e sempre consideraremos bem vindos para ajudar a alavancar o estoque genético nacional animais escolhidos com critério, Royal Academy, Elusive Quality num passado próximo e Roderic O'Connor no presente, são bons exemplos de que o importado com saber funciona e funciona muito bem!