Há jornadas de sucesso e há jornadas que, pela maneira como os resultados se encadeiam, acabam funcionando como uma demonstração de força de um programa de criação. O domingo de 6 de setembro de 2026, em ParisLongchamp, pertence claramente à segunda categoria para o Aga Khan Studs.
Em uma das reuniões tecnicamente mais importantes do calendário francês, a dos Qatar Arc Trials, a criação Aga Khan apresentou três produtos em três provas de Grupo. O resultado foi perfeito: três corredores, três vitórias. Erdenali venceu o Prix du Moulin de Longchamp (G1); Varandir conquistou o Prix Niel (G2); e Daryz encerrou a tarde impondo-se no Prix Foy (G2). Todos criados e pertencentes ao Aga Khan Studs, todos treinados por Francis-Henri Graffard e todos conduzidos por Mickaël Barzalona.
O sábado já havia dado uma vitória à criação com Handani, por Medaglia d'Oro em Haparanda, por Rock of Gibraltar, vencedor de um maiden sobre 2.020 metros em Navan por 3 1/4 corpos. Mas foi em Paris, no dia seguinte, que o significado do fim de semana ganhou outra dimensão.
Erdenali: um novo milheiro de Grupo 1
O primeiro golpe veio com Erdenali, que enfrentava pela primeira vez uma prova de Grupo 1 no Prix du Moulin de Longchamp, sobre 1.600 metros. E não apenas venceu: derrotou um lote que incluía Gstaad, vencedor das Irish 2,000 Guineas, além de Ten Bob Tony e Opera Ballo, estabelecendo simultaneamente novo recorde da prova e da pista. A vitória representou ainda o oitavo triunfo da família Aga Khan no Prix du Moulin, outro recorde.
A campanha de Erdenali torna o salto de categoria ainda mais significativo. Ele havia vencido suas três primeiras apresentações, incluindo o Listed Prix de Saint-Patrick, e chegara apenas em terceiro no Prix Messidor (G3), numa corrida em que encontrou dificuldades de percurso. Em Longchamp demonstrou que aquela derrota dizia pouco sobre seu verdadeiro limite. Aos três anos, passou diretamente da condição de promessa para a de ganhador de Grupo 1.
Do ponto de vista da criação, seu pedigree é particularmente interessante. Erdenali é por Caravaggio em Erdana, por Sea The Stars, sendo sua segunda mãe a extraordinária Ervedya, filha de Siyouni e vencedora de três provas de Grupo 1. Há aqui uma circunstância histórica: Ervedya havia vencido exatamente o Prix du Moulin onze anos antes. Portanto, a mesma família materna voltou à prova por outra geração e por uma arquitetura genética inteiramente renovada.
É justamente neste ponto que a leitura pelo método de Vuillier e pelo Dosage de Varola/Roman é especialmente reveladora: Caravaggio introduz uma corrente de velocidade norte-americana através de Scat Daddy–Johannesburg, enquanto a linha materna associa Sea The Stars a Siyouni e preserva uma das famílias modernas de maior classe da criação Aga Khan.
Varandir: Zarak e a continuidade das grandes famílias
Pouco depois foi a vez de Varandir, filho de Zarak em Varkesha, por Pivotal, conquistar o Prix Niel (G2), uma das tradicionais preparatórias dos três anos para o Prix de l'Arc de Triomphe.
A maneira da vitória foi relevante. Montreal havia conseguido grande vantagem na frente, mas Varandir, vindo de trás, reduziu progressivamente a diferença e assumiu o comando aproximadamente 100 metros antes do disco, derrotando Alam por 1 1/4 corpo. Entre os vencidos estava ainda o ganhador do Irish Derby, Benvenuto Cellini.
Varandir havia vencido suas três primeiras corridas, incluindo o Prix Hocquart (G3), antes de terminar quarto no Grand Prix de Paris (G1). No Niel voltou a confirmar o conceito elevado que sempre despertou no Aga Khan Studs. A vitória tornou-o o 26º ganhador de Grupo produzido por Zarak e deu à família Aga Khan sua sexta vitória no Prix Niel.
Geneticamente, o caso é fascinante. Zarak representa a combinação Dubawi–Zarkava, enquanto Varkesha é uma filha de Pivotal e neta materna de Sea The Stars. Mais abaixo surge uma poderosa família que produziu, entre outros, Valyra, Valixir, Vadamos, Vadawina, Vazira, Vadeni e Val Royal.
Aqui encontramos outro aspecto fundamental da filosofia Aga Khan: não se trata apenas de conservar famílias; trata-se de recolocá-las continuamente diante de novas combinações genéticas. Em Varandir, uma antiga e comprovada corrente feminina encontra Zarak, ele próprio produto de uma das maiores realizações de seleção do Stud nas últimas décadas, Zarkava.
Daryz: o campeão confirma sua posição
Coube a Daryz fechar a tarde no Prix Foy (G2). Vencedor do Prix de l'Arc de Triomphe de 2025 e dos Prix Ganay e Prix d'Ispahan em 2026, o filho de Sea The Stars utilizava a prova como preparação para a tentativa de conquistar um segundo Arc consecutivo.
Daryz venceu Bay City Roller por 1 3/4 corpo praticamente “hands and heels”, sem que Barzalona precisasse exigir dele um esforço máximo. Francis-Henri Graffard deixou claro depois da corrida que aquele era exatamente o tipo de preparação desejado quatro semanas antes do Arc. Ainda mais impressionante, segundo os dados publicados pelo próprio Aga Khan Studs, Daryz percorreu os 600 metros finais em tempo inferior ao registrado pelo recordista do mile Erdenali, apesar de estar disputando uma prova de 2.400 metros.
Sua origem resume outra vertente do programa. Daryz é por Sea The Stars em Daryakana, por Selkirk. Daryakana, vencedora de Grupo 1, já produziu seis ganhadores de Stakes, entre eles o também ganhador de Grupo 1 Dariyan. A família remonta a Darazina, incorporada ao patrimônio Aga Khan através do antigo núcleo Marcel Boussac e transformada, ao longo das gerações, numa linhagem que produziu Daryaba, Daryakana, Dariyan, Darjina e agora Daryz.
É um caso extraordinário para examinarmos sob Vuillier e Varola, porque nele convivem a influência de Sea The Stars — portanto Cape Cross, Green Desert e Urban Sea — com uma linha feminina cuja seleção foi realizada durante décadas dentro do próprio programa.
Mais que três vitórias
O verdadeiro significado daquele domingo talvez esteja justamente na diferença entre os três vencedores.
Erdenali é um milheiro por Caravaggio, construído sobre uma mãe Sea The Stars e a família de Ervedya. Varandir é um clássico de 2.400 metros por Zarak, sobre Pivotal e Sea The Stars, dentro de uma das grandes famílias “V” do Stud. Daryz é o campeão já consagrado, por Sea The Stars, pertencente à histórica família “D”.
Não são três produtos geneticamente semelhantes que chegaram ao mesmo resultado. São três soluções diferentes produzidas por um mesmo sistema de seleção.
E talvez seja exatamente aí que esteja a principal lição da criação Aga Khan. Durante mais de um século, sua força não resultou de perseguir uma única fórmula ou um determinado garanhão. Resultou da capacidade de preservar famílias femininas excepcionais, selecionar rigorosamente dentro delas e, ao mesmo tempo, renovar continuamente os pedigrees através dos melhores vetores disponíveis no cenário internacional.
Caravaggio aparece em uma família Aga Khan. Pivotal aparece em outra. Dubawi entra através de Zarak. Sea The Stars surge como pai, pai de mãe e elemento estrutural do programa. Siyouni aparece mais abaixo em Erdenali. E, por trás desses nomes, continuam vivas famílias que atravessaram décadas de seleção.
O resultado, naquele 6 de setembro, foi quase uma representação condensada dessa filosofia: um Grupo 1 sobre a milha, dois importantes testes sobre 2.400 metros e três vitórias consecutivas em ParisLongchamp.
Foi uma tarde perfeita para a criação Aga Khan.
ERDENALI — velocidade sobre uma base clássica
Sob a ótica de Vuillier, Erdenali apresenta uma construção particularmente interessante por reunir duas duplicações importantes: Mr. Prospector 4x5 e Allegretta 4x5. A primeira reforça velocidade, aceleração e capacidade competitiva norte-americana; a segunda concentra justamente uma das matrizes mais importantes do Thoroughbred europeu moderno, responsável por Urban Sea e, por outro caminho, ligada a Kingmambo. O resultado é uma associação extremamente funcional entre a velocidade introduzida por Caravaggio–Scat Daddy–Johannesburg e a profundidade clássica da linha materna de Sea The Stars–Siyouni.
O Dosage confirma essa leitura. Seu perfil é 8,0–7,0–15,0–5,0–0,0, com Dosage Index 1,80 e Center of Distribution 0,51. Embora seja o mais veloz dos três vencedores do domingo, o maior bloco continua sendo o Classic, com 15 pontos. Portanto, não estamos diante de um pedigree de sprinter puro, mas de um cavalo em que a velocidade foi colocada sobre uma estrutura genética capaz de sustentá-la — exatamente o que sua atuação sobre a milha demonstrou.
VARANDIR — equilíbrio Intermediate/Classic
Em Varandir, a leitura de Vuillier revela uma construção menos voltada à velocidade pura e mais claramente orientada para o equilíbrio clássico. O principal reforço visível é Mr. Prospector 5x5, chegando por Seeking The Gold, no ramo de Dubawi, e por Gone West, no ramo de Zarkava. Em torno desse ponto encontram-se correntes muito diferentes — Dubai Millennium, Shirley Heights, Dancing Brave, Nureyev, Cozzene, Sea The Stars e Sinndar — criando uma composição de grande diversidade, mas fortemente selecionada para classe e capacidade de sustentação.
Seu Dosage é talvez o mais didático: 1,5 Brilliant, 12,0 Intermediate, 14,5 Classic, 6,5 Solid e 0,5 Professional, com DI 1,46 e CD 0,21. A concentração de 26,5 pontos em Intermediate + Classic explica perfeitamente um cavalo capaz de competir em alto nível nas distâncias clássicas sem perder capacidade de aceleração. Varandir aparece, portanto, como o mais claramente construído para a faixa intermediária entre velocidade e stamina.
DARYZ — a maior concentração clássica
Daryz apresenta a construção mais clássica dos três. Pelo princípio de concentração de grandes transmissores, destaca-se o inbreeding 4x5 sobre Northern Dancer, alcançado através de Night Shift, pelo lado materno, e de Danzig–Green Desert, na linha de Sea The Stars. É uma duplicação suficientemente afastada para funcionar mais como reforço de uma corrente genética dominante do que como fechamento excessivo do pedigree. Ao redor dela aparecem Mr. Prospector, Sharpen Up, Ahonoora, Sir Ivor, Buckpasser e Brigadier Gerard, numa estrutura muito rica em classe clássica.
É no Dosage, porém, que Daryz se diferencia de maneira extraordinária: 23,5 pontos Classic, contra apenas 6,5 Brilliant e 4,0 Intermediate, formando o perfil 6,5–4,0–23,5–8,0–0,0. Seu Dosage Index de 1,13, o menor dos três, combina-se a um Center of Distribution de 0,21. Não surpreende, portanto, que seja precisamente Daryz quem expresse a maior aptidão para os 2.400 metros clássicos. O mais interessante é que essa capacidade de sustentação não elimina sua aceleração: ela simplesmente permite que sua velocidade seja carregada por mais tempo.
Três vencedores, três soluções genéticas
Aqui está, o melhor encerramento técnico do domingo.
Erdenali, Varandir e Daryz não repetem uma fórmula. Ao contrário, representam três interpretações diferentes do mesmo princípio de criação. Erdenali desloca o equilíbrio para velocidade e milha, com DI 1,80 e CD 0,51. Varandir ocupa o centro, concentrando Intermediate e Classic, com DI 1,46. Daryz desloca-se mais claramente para a sustentação clássica, com DI 1,13 e nada menos que 23,5 pontos Classic.
É justamente essa diversidade que torna o fim de semana tão significativo para a criação Aga Khan. Três produtos de famílias diferentes, construídos por caminhos diferentes e destinados a exigências distintas venceram, no mesmo programa, desde o Grupo 1 da milha até as grandes preparatórias francesas de 2.400 metros. Não foi a vitória de uma fórmula genética. Foi a vitória de um sistema de seleção.
ENCERRAMENTO
O extraordinário fim de semana da criação Aga Khan deixa, acima de tudo, uma lição que ultrapassa os resultados de Erdenali, Varandir e Daryz: uma grande criação não deve estar aprisionada a uma única fórmula genética nem a um único perfil de corredor. Sua força está justamente na capacidade de trabalhar diferentes famílias, diferentes correntes de sangue e diferentes combinações, produzindo cavalos capazes de expressar velocidade, milha, distância intermediária ou fundo clássico.
É dentro dessa mesma concepção que hoje procuramos trabalhar a criação Palmerini. Não se trata de reproduzir fórmulas, mas de buscar, em cada acasalamento, o equilíbrio mais adequado entre velocidade, classe e sustentação, preservando deliberadamente uma diversidade de arquiteturas genéticas capaz de produzir diferentes aptidões funcionais.
O objetivo é oferecer ao mercado não um produto padronizado, mas uma população de cavalos geneticamente diversificada, na qual possam surgir desde animais voltados à velocidade e precocidade até aqueles destinados à milha, às distâncias intermediárias e às provas clássicas de fundo.
Porque, em última análise, o turfe não exige um único tipo de cavalo — e uma criação que pretenda atendê-lo em toda a sua dimensão também não deve produzir apenas um único tipo.


