quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Tudo Como Dantes no Quartel de Abrantes


Transcrevo abaixo excelente texto do hipólogo Renato Gameiro extraído de seu “NINHO DO ALBATROZ”, na minha opinião o melhor blog turfístico da atualidade sempre bem informativo do que se passa no mundo do turfe, datado em 02/08/2010, no qual versa sobre tema relativo ao abandono que as linhagens masculinas são relegadas no Brasil, posicionamento corretíssimo e com o qual concordo em gênero, número e grau.

Obs. Notem que o escrito foi em 2010 e hoje 7 anos depois tudo continua igual e daqui a outros 7 e mais 7 provavelmente nada se modificará, mas caso esse nosso trabalho de divulgação do bom nacional prospere e frutifique na mentalidade de algum criador brasileiro já nos sentiremos com a missão cumprida.

As vezes é difícil de querer sequer acreditar. Mas o descrédito para com o reprodutor nacional, mesmo filho do importado idolatrado em odes e versos, é ainda enorme em nosso pais. Ciciam nossa palavras. Se mostram histriônicos, como um deputado da situação tentando provar sua inocência no mensalão.
Existe uma forma de se manter uma raça em um determinado centro criatório. E esta forma, ou poder-se-ía, dizer fórmula, é simples, como toda regra deve ser. Ela depende em muito das reprodutoras, pois, mesmo em um pais como o nosso onde muitos não acreditam que cavalo de corrida tenha mãe, e a maioria dos que acreditam, pensam que ela deva ter sido clássica em pista, mesmo com qualquer falta de pedigree que possivelmente tenham, a mãe é dado importante. Não notado, mas sempre existente.
Pois bem, experimente pegar um nacional de ótimo calibre em pista, filho de um Royal Academy, de um Roi Normand, de um Jules ou de um Spend a Buck, apenas para termos como exemplo, e a ele oferte éguas importadas, ou mesmo nacionais de linhas altamente transmissoras de classicismo e eu lhe garanto que suas chances de manter a raça viva em nosso território serão grandes. Se não enormes, pelo menos maiores. Formar-se-á a nossa própria raça, miscigenada com o importado de bom valor.
Hoje não existem os filhos de Locris, Earldom, Waldmeiter, nem mesmo de Clackson ou de Ghadeer em plena evidência. E este crime contra a criação nacional não é de hoje. Ele perpetua-se de geração em geração.
Vocês imaginem que a um determinado tempo, trouxemos em uma só leva os segundo, terceiro e quarto colocados do Derby de Epson, quando esta carreira era considerada a maior vitrine para a reprodução. Foram eles, Swallow Tail, Royal Forest e Normaton. Evidentemente que eles caíram em três da meia dúzia de haras de ponta que tínhamos na época e as famílias Peixoto de Castro, Seabra e Rocha Faria, os utilizaram. O primeiro foi sucesso, o segundo esteve na media, enquanto o terceiro pouco disse ao que veio. Outrossim, nada dos mesmos pode ser mantido até os dias de hoje. E foi pelos pequenos Haras que de alguma forma estes três grandes cavalos foram capazes de sobreviver por mais de uma geração
Sabot, por Normaton ainda produziu um ganhador de grupo, El Susto. Zuido e Código por Swallow Tail, produziram o primeiro a Juca, o pai de Juanero e o segundo a Computador, este o pai de Lorde Ubaldo, Molhado e Parolin, E Junior e Vaudeville, filhos de Royal Forest são respectivamente responsáveis por Noscado e Yanbarberick. E depois? Depois, um grandessíssimo nada. Gigantesco como um elefante mirado pelas lentes de um binóculo. Estes três elementos, simplesmente extinguiram-se por linhas superiores. E pasmem, os três, descendiam daquele que era a coqueluche do momento, Bois Roussel.
Lembro-me de dois outros importados da tribo Bois Roussel, via seu filho Tehran; Kameran Khan e Jour et Nuit III. O primeiro, sediado no haras Ipiranga produziu a Itamaraty, cujo filho Grandote aproveitado em um haras de pequeno porte, foi ainda capaz de produzir a Nick de Mestre. O outro, lidimo ganhador do Prix d’Ispahan, Jean Prat, Eugene Adan e Guichê, além de segundo colocado na Poule d’Essai dês Poulains para Neptunus, foi ainda capaz de gerar a um cavalo chamado In Command, pai de Blessed Trust e sob suspeita igualmente pai de Riadhis, um dos melhores cavalos que vi correr em território nacional, que mesmo pouco aproveitado reprodutivamente, foi o responsável pelo aparecimento de El Astral.
E tudo se foi ralo abaixo!
E o pior de tudo: a coisa vem se repetindo ano, apos ano. Seria esta a forma mais sensata de continuarmos a conduzir nossa criação? Penso que não.
O que fizeram com os filhos de Ghadeer e Clackson recentemente, sem dúvidas dois dos maiores reprodutores de nossa história moderna, poderia ser taxado no mínimo de criminoso. UM VERDADEIRO DESCRÉDITO PARA COM O QUE É NOSSO. Seria como – guardadas as devidas proporções - os japoneses abandonassem os filhos de Sunday Silence e os britânicos os de Sadler’s Wells, em prol dos importados de menor valia.
Podemos manter em voga o reprodutor nacional, o abastecendo de sangue importado. Mesmo sofrendo a pressão dos idiotas, louvadores de detração do óbvio, por óbvias razões.
Clackson foi fenômeno. Romarin e Redattore estão acima da média. Durban Thunder, Mastro Lorenzo e Hard Buck, já em suas primeiras gerações, soltaram aquelas fagulha típicas e capazes de iniciar um incêndio. O que estamos nos esperando? Pela redescoberta da pólvora? Porque não darmos mais chances aos citados e a ele somarmos, por exemplo, um Top Hat ou outro qualquer que tenha demonstrado similar valor em pista?
Até quando nos manteremos nesta política biltre de desvalorização e do 
total infundado descrédito pelo que melhor podemos produzir?

Renato Gameiro


A importância na formação de linhagens masculinas próprias é fundamental inclusive para se ampliar o interesse do mercado estrangeiro ao cavalo nacional e possibilitar a exportação de filhos ou netos paternos de garanhões que como corredores foram importantes mas que em um primeiro momento não corresponderam em suas origens na reprodução e foram descartados. Com a fragilidade de nossa moeda aliada a hipódromos agonizantes por questões diversas as recentes vindas em shuttle de animais como Roderic O'Connor, Rock of Gibraltar, Holy Roman Emperor entre alguns outros se torna hoje impensável, infelizmente também foi trazido em shuttle alguns garanhões sabidamente fracos e com estruturas genéticas questionáveis que acabaram não dizendo ao que vieram, pelos mesmos motivos a importação definitiva de animais padrão Yagli é muito difícil e a opção pelo excelente nacional na reprodução seja o mais racional, mas o que se observa é o criador brasileiro voltar ao velho hábito de importar para garanhão animais com padrão em pistas abaixo da crítica; recentemente foi importado com status de "popstar" cavalo para reprodução que em 3 apresentações foi décimo colocado em 13, terceiro em 7 mais um último em 10, todas provas em hipódromo de segunda linha e esperar que refinado matungo confirme na reprodução invejável pedigree, o inferno do PSI está cheio de belos pedigrees... mas vamos aguardar que éguas de primeiro time aliadas a condições excepcionais de criação ajudem a solene pangaré, afinal Earldom e Tumble Lark existiram, se bem que esses dois pelo menos foram ganhadores.

Penso também que a priorização em nossa criação seria utilizar o excelente nacional como reprodutor e ir "temperando" nosso estoque genético com a importação de fêmeas de régias linhagens, o que convenhamos é muito mais alcançável financeiramente do que importar cavalos de real categoria em pistas para a reprodução.

En passant, Setembro Chove com seus 17,4%, Redattore com 12,5% e Romarin com 11,3% de filhos ganhadores e colocados Black Type são exemplos do bom garanhão nacional explorado em forma correta.


Como nessa postagem "usei" muito Renato Gameiro finalizo perguntando: E aí seu LuiZ?