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terça-feira, 11 de julho de 2023

Franco Varola - Análise de tendências - 2ª parte



Dr. Franco Varola e o o presidente Juscelino Kubitschek, durante as festividades do GP Brasil.


(continuação)


Deveríamos seguir a análise relativa aos garanhões chefes-de-raça, e nos dedicarmos inteiramente às verificações estatísticas, mas, entrementes, o argumento foi reiniciado por uma voz bem mais prestigiada do que a minha, a da sra. Vuillier que, em uma entrevista, explicou os critérios elaborados por seu falecido esposo e até agora seguidos nas criações do Aga Khan. A sra. Vuillier admitiu também que, com o envelhecimento da série que compreende os nomes de Bend'Or, Hampton, Isonomy, Hermit, Galopin e St. Simon, tornou-se necessário preparar uma nova série, relativa ao primeiro período de nosso século; não disse porém quais sejam os nomes escolhidos e não a podemos condenar por isso, porquanto as criações do Aga Khan constituem uma  empresa de tal importância que a ela se aplica o critério do "segredo de fabricação", da mesma forma que tantas outras empresas de diferentes ramos produtivos. Assim, permanece aberto a todos o exame desse fascinante argumento.

Inicialmente é oportuno perguntar: que desenvolvimento tiveram os nomes indicados pela sra. Vuillier em sua última série e que outros nomes lhe foram acrescentados nesse ínterim? Constitui uma grande homenagem ao estudioso francês o fato de que, ainda hoje, a maioria dos nomes importantes que se assinalaram de 1900 até agora, descende das cinco estirpes por ele indicadas, embora o aumento da produção do puro-sangue e, ainda mais, a grande expansão geográfica das corridas e da criação, tenham necessáriamenle projetado e valorizado outras estirpes que já não se podem ignorar. A situação atual pode ser resumida da seguinte forma:

1 - Isonomy manteve sua refinadíssima expressão clássica e conta, neste século, com pelo menos sete garanhões fundamentais: Swinford, Blandford, Blenheim, Donatello II, Alycidon, Big Game e Ticino.

2 - A sequência Galopin-St.Simon, continuou a mostrar uma extraordinária vitalidade e conta pelo menos com uma dúzia de representantes cujo estudo é imprescindível: Chaucer, Rabelais, Havresac II, Prince Rose, Prince Rio, Sicambre, Wild Risk, Worden, Vatout, Bois Roussel, Alcantara II e Mieuxce.

3 - A descendência de Ben d'O subdividiu-se em vários ramos de grande prolificidade e de alto rendimento, tanto que nada menos de dezoito garanhões são hoje necessários para caracterizá-la inteiramente: Ortello, Sir Gallahad III, Bull Lea, Asterus, Fairway, Cicero, Chateau Bouscaut, Fair Trial, Pharis, Clarissimus, Bachelor's Double, Orby, Panorama, Phalaris, Teddy, Pharos, Nearco e Nasrullah.  

4 - O grupo Hampton manteve suas características fundamentais de solidez e alto rendimento, muito embora. como já citei a "fashionability" de Hyperion tenda a obscurecer nosso julgamento sobreos efetivos méritos intrínsecos desse garanhão e de seus descendentes. Em todo caso, pelo menos oito descendentes de Hampton devem ser tomados em consideração: Gainsborough, Dark Ronald, Son-in-Law, Hyperion, Aureole, Bayardo, Solario e Oleander.

5 - Enfim, a descendência de Hermit é a única que que se desenvolveu de acordo com as previsões e o único produto a ela pertencente, nascido neste século, ao qual se pode atribuir uma influência nos pedigrees clássicos contemporâneos é La Farina, aliás surgido há cerca de cinquenta anos. Até aqui, limitamo-nos à última série de Vuillier. É preciso agora examinar o que fizeram entrementes as outras estirpes e, antes das outras, as duas que produziram os fundadores Herod e MatchemEstas foram representadas na primeira série de Vuillieir, mas omitidas tanto na segunda como na terceira e última séries.

6 - Herod conta, em nosso século, com pelo menos cinco indivíduos importantes: Bruleur, Tourbillon, Djebel, The Tetrarch e King Salmon. 

7 - Matchem possui quatro indivíduos fundamentais: Hurry On, Man o'War, Fair Play e Precipitation. 

E, finalmente, é preciso indicar as estirpes que produziram Eclipse, e que se salientaram fora da terceira série de Vuillier, existindo pelo menos seis, que indicarei da seguinte forma: 

8 -  A extraordinária sequencia Rock Ruod - Tracery - Congreve.

9 - O grupo formado por Sunstar, Admiral Drake e Count Fleet.

10 - O imprescindível Spearmint.

11 e 12 - Os norte-americanos Black Toney e Equipoise.

13 - O prematuramente desaparecido Navarro, um dois maiores pais de reprodutoras de nossa época e único expoente da outrora poderosa linhagem de Melton, ainda vivo na lembrança geral.

Temos assim um total de 65 garanhões importantes no decorrer desse século e, se quiséssemos apenas estender a admissão aos que dominaram em certos países sem porém ultrapassar-lhes os limites - tais como Foxbridge na Austrália, Fremonto na Bélgica, Traghetto na Itália, Postin no Peru e muitos outros na Inglaterra e na França - chegaríamos facilmente a uma centena. 

Mas é evidente que uma série de Vuillier, ainda que ilimitada, não pode compreender um número tão grande de nomes e isso por duas razões pelo menos:

 a) em lugar de oferecer um ponto fixo ao criador, confundi-lo-ia, por colocar diante de si uma lista ampla demais para ser posta em prática; 

 b) os 65 garanhões citados distribuem-se por um período de meio século, de Chaucer (1900) a Aureole (1950), que é uma contradição em termos com relação ao conceito vuillieriano de série. 

De fato, esta, por assim dizer, deve fotografar (os pontos de passagem compulsória em um determinado momento; os garanhões de uma série devem representar, se me permitem a comparação, as Termópilas no plano dos cruzamentos de um criador. E portanto, se quisermos atualizar Vuillier, devemos formar uma série localizada o mais possível por volta do princípio do século e constituída por número não superior a uns vinte nomes, tentativa essa que foi justamente a razão do livro 'Garanhões Chefes-de-Raça".

Mas, dizíamos que se pode e se deve fazer o controle estatístico, porém desde que seja feito com cautela. No caso de Vuillier, a unidade de medida foi dada por um certo número de corridas clássicas. Naquela época, a identificação entre corrida clássica e cavalo superior era quase absoluta. Em nossos dias, as coisas são diferentes. Os ricos "handicaps", as provas propagandísticas e os prêmios ''mamute", em vários países entre os quais até mesmo a tradicional Inglaterra desligaram um pouco a ideia da antiga fórmula do campeão absoluto. Talvez a única corrida que atualmente mantém unia identidade perfeita entre grande prêmio monetário e excelência qualitativa do campo dos participantes, ano após ano, seja o "Prix de l'Arc du Triomphe". Portanto, no momento em que nos dispomos a escolher a unidade de medida do cálculo estatístico (o que em inglês se chama "yardstick" e na linguagem de nossos pesquisadores de mercado, "campeão"), somos obrigados a exercitar nosso senso crítico para distinguir, no acervo das grandes provas hípicas de hoje, as que efetivamente possam servir ao nosso objetivo. Qualquer estatística associada a uma pesquisa, portanto, é um compromisso entre a vastidão da matéria e o rigor que se deseja aplicar a própria pesquisa.

Tenho em mãos um cálculo feito sobre 77 vencedores das grandes provas internacionais dos últimos anos, escolhidas entre as principais provas deste tipo na Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Estados Unidos, Argentina e Brasil. O método consiste em tomar o pedigree de cinco gerações do animal vencedor e assinalar um número de pontos a favor de cada um dos 31 antepassados nele constante.

Apresentam-se imediatamente duas objeções: primeiro, o critério de atribuição dos pontos é arbitrário. Pode-se responder que o resultado final do somatório para cada um desses campeões é limitado com relação a totalidade de toda matéria pesquisada. Além disso, esse resultado é amplo, ganhando em extensão o que perde em profundidade. 

A segunda objeção é mais complexa. É verdade que, segundo um dos princípios básicos da genética, a influência de um antepassado é maior na primeira geração do que na segunda; maior na segunda do que na terceira, e assim por diante. Costuma-se dizer, com efeito, que os dois pais contribuem com 50% para o patrimônio genético, os quatro avós com 25%, os oito bisavós com 12,55, e assim por diante. De fato. Vuillier seguiu aproximadamente este princípio na elaboração da teoria da dosagem. Por outro lado, alguns autores seguem um sistema de contagem por pontos, semelhante ao que é usado no jogo de "bridge", conhecido como sistema Goreli, ou computo absoluto, e oposto ao sistema Cutbertson ou computo relativo. Em seu excelente livro ''Bloodstock Breeding", sir Charles Leicester atribui 4 pontos a cada presença na primeira geração, 3 pontos na segunda, 2 pontos na terceira e 1 ponto na quarta, quando examina os pedigrees dos vencedores do Derby de Epsom. Aliás, em toda a obra, permanece fiel ao pedigree de quatro gerações. Eu próprio, em "Garanhões Chefes-de-Raça", adotei as quatro gerações para o cálculo do eventual "inbreeding" dos garanhões examinados. Trata-se, com efeito, neste caso, de um dado sintético, cujo valor se dividiria se atribuído a um número maior de antepassados. Praticamente, todos os cavalos têm um ou mais ''inbreedings" da quinta ou sexta geração em diante. Mas quando se trata de calcular as presenças de antepassados que, em muitos casos, remontam ao principio do século parece-me que só um pedigree de cinco gerações pode dar à pesquisa a sua justa perspectiva. Cinco gerações correspondem, grosso modo, a meio século, como no exemplo clássico de Ribot (1952), cujos cinco antepassados diretos são Tenerani (1944), Bellini (1937), Cavaliere d'Arpino (1926), Havresac II (1915) e Rabelais (1900). Assim, quando examinamos as cinco gerações de um vencedor atual, abrangemos, quase sempre, meio século.

Como o objetivo de nossa pesquisa é conhecer os nomes dos garanhões com maior frequência presentes nos pedigrees e não necessariamente saber se neles ocupam uma posição mais próxima ou mais distante, acredito que o critério da proporcionalidade usado por "sir" Charles não é indispensável e que é suficiente atribuir um ponto para cada presença.

Segundo este método, os setenta e sete vencedores das grandes provas internacionais no período 1957-1961 apresentam as seguintes presenças de garanhões chefes-de-raça: Chaucer 68, Phalaris 64, Polymelus 49, Swynford 47, Bayardo 46, Gainsborough 44, Teddy 41, ,St. Simon 41, Ajax 35, Blandford 34, Rabelais 33, Phalaris 32, Havresac II 29, Dark Ronald 28, Son-in-Law 28, Spearmint 28, Tracery 28, John O'Gaunt 25, Bay Ronald 25, The Tetrarch 25, Marcovil 25, Hurry On 23, Sans Souci II 21, Hyperion 20, William The Third 19. Persimmon 18, White Eagle 18, Sundridge 18, Friar Marcus 17, Gallinule 17, Desmond 16, Sunstar 16, Cyllene 16, Minoru 16, Nearco15, St. Frusquin 15, Cicero 14, Perth 13, Sardanapale 14, Rock Sand 11, Carbine 13, Blenheim 12, Bruleur 12, Tredennis 12, Alcantara II 11, Charles O'Malley 11, Chouberski 11, Bachelor's Double 11, Gay Crusader 11, Roi Herode 10, Marco 10, Perrier 10 e Buchan 10.

Setenta e sete "pedigree" de cinco gerações, contendo cada um 31 nomes masculinos, perfazem um total de 2.387 presenças. Estas são divididas entre 616 garanhões diferentes, dos quais citamos acima apenas os que têm pelo menos 10 presenças, que são 53 animais diferentes. Totalizam 1.239 presenças, isto é, menos de 100 dos garanhões representados absorvem mais da metade das presenças. Isto demonstra o predomínio de pouquíssimos e prepotentíssimos garanhões sobre a grande massa dos reprodutores, em paradoxal contraste com a noção corrente, segundo a qual o puro-sangue deve ser o animal selecionado por antonomásia. Convém observar ainda que os quatro primeiros garanhões - Chaucer, Phalaris, Polymelus e Swynford - que são menos de um por cento do total, representaram, só eles, cerca de dez por cento do total das presenças (228).

Um outro fato que impressiona imediatamente é que Chaucer, Polymelus e Swynford ocupam uma posição predominante (a presença de Polymelus é devida quase exclusivamente a seu filho Phalaris) e que estes três reprodutores são provenientes do Stanley Stud; isto indicaria que, tomado como centro de criação individual, Stanley Stud foi o mais poderoso fator de propagação hereditária do puro-sangue em qualquer parte do mundo. Além disso, acredito que, mesmo ampliando dez vezes o campeão examinado, não haveria grande modificação nos resultados no que diz respeito aos citados primeiros nomes da lista. Observe-se ainda que, dos 20 + 30 garanhões examinados em "Garanhões Chefes-de-Raça", 23 são mencionados na lista parcial acima, enquanto outros 23 figuram 9 menos vezes. Os únicos que não comparecem de forma alguma são Bull Lea, Château Bouscaut e Panorama. Os dois primeiros seriam mencionados se o campeão pudesse ser levado a alguns anos antes, enquanto Panorama representa um caso diferente. Todas as corridas que contribuíram para a pesquisa são corridas de distância e, portanto, é bastante raro que um filho ou descendente de Panorama tenha tomado parte nelas, embora pudesse haver um vencedor na seção feminina do pedigree com o nome de Panorama.


Phalaris


Por outro lado, em um estudo critico que inclua a totalidade da raça, o nome de Panorama não pode ser omitido, porquanto representa o paradigma contemporâneo do velocismo puro, ou seja, um dos conceitos básicos da seleção e como distinguimos os nomes dos "stayers" puros, também devemos assinalar os dos mais importantes "sprinters". Em outras palavras, o desenvolvimento da raça ocorre com a contribuição de todos os fatores positivos e se entre estes encontra-se Son-In-Law pela mesma razão também deve estar Panorama.

Como já indiquei, Polymelus ocupa uma posição elevada em uma lista baseada nas presenças nos pedigrees devido a seu filho Phalaris. Mas quem ignora êste particular pode pesquisar o sangue de Polymelus em si e por si. O que seria coisa inteiramente ociosa. Para todos os fins práticos, o nome de Polymelus é hoje representado por Phalaris, tanto é verdade que nem mesmo julguei necessário incluir o nome de Polymelus entre os 12 garanhões do grupo Bend'Or citados no início deste artigo.

Mas também erraria quem pretendesse aplicar este conceito indiscriminadamente a todas as sequencias pai-filho que aparecem nas estatísticas e considerasse as 46 presenças de Bayardo devidas principalmente à existência de Gainsborough, que tem 44. Na realidade, Bayardo tem uma importância fundamental nos pedigrees, até mesmo prescindindo do notável desempenho de Gainsborough como reprodutor. Entretanto, encontramos pouco mais adiante um caso, semelhante ao de Phalaris-Polymelus, com Teddy-Ajax. A importância assumida por Teddy é tal que o nome de Ajax se tornou secundário, embora tenha dada classe a mais de um pedigree isento do sangue de Teddy; é suficiente pensar em Havresac II, cuja mãe, Hors Concours, é justamente uma filha de Ajax. Mas vejamos um caso ainda mais patente: Blandford conta com 34 presenças, enquanto seu filho Blenheim conta apenas com 12 e Charles O'Malley, avó materno de Blenheim, com 11. Temos aqui uma situação na qual é fácil perceber que Blandford fez sentir sua influência através de uma pluralidade de descendentes dos quais Blenheim só representa um entre muitos, embora seja o mais importante. Mas, por sua vez Charles O'Malley, garanhão totalmente obscuro e que nem mesmo seria lembrado hoje não fosse a reprodutora Malva, surge naestatística, evidentemente, só porque existe Blenheim surge, enfim, em função de Blenheim. Mas é evidente que em qualquer escolha critica de garanhões o nome de Charles O'Malley jamais poderia ser tomado em consideração porque, sejam quais forem suas virtudes, vem a ser automaticamente representado quando é escolhido o nome de Blenheim, e Blenheim é um nome que nunca pode estar ausente de uma lista de Garanhões Chefes-de-Raça.

Vemos assim emergir dessa contagem duas tendências opostas e distintas: uma é aquela em que as presenças diminuem de pai para filho, ou seja, Swynford 47,  Blandford 34, Blenheim 12. Neste caso, temos uma sequencia que deve ser considerada em conjunto, porquanto cada um de seus componentes demonstra não ter' transmitido suas qualidades a um só filho, mas a uma pluralidade de descendentes.

Portanto, um criador que raciocine em termos práticos deverá não só pesquisar o sangue de Blenheim mas também o de Blandford e até mesmo o de Swynford, quando se apresentar, por outra via que não seja Blandford. O caso oposto é o de Cyllene 16, Polymelus 49, Phalaris 65, em que é evidente que cada pai se manifesta em termos concretos através de um só filho. Portanto o criador que pesquisa Phalaris não precisará pesquisar separadamente Polymelus e Cyllene.


(continua)








segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Varola - Análise de tendências - 5ª parte

 


The Tetrarch (by Clarence Hailey), cópia sem edição da foto original.






(continuação)


A grande lacuna de todos os estudos realizados sobre pedigrees e sobre as linhas de sangue - consistem eles na classificação por famílias, segundo Bruce Lowe, o índice de vitórias médias segundo estes, as dosagens de Vuillier ou índice das distâncias segundo a "Throughbred Breeder's Association" é dar indicações a posteriori e não a priori. Na atualização das dosagens de Vuillier, que estou tentando realizar, proponho-me adotar, entre outras coisas, uma nomenclatura que permita dar um pequeno, mas importante passo à frente em direção do conhecimento a priori do resultado do cruzamento. Anteriormente, afirmei que se examinarmos o puro-sangue em seu complexo como uma população, com todas as suas manifestações psicológicas e sociológicas, distinguiremos, como primeira consequência urna divisão em grupos que, para ser prático e breve, reduzi a cinco, chamados, respectivamente, brilhante, intermediário, clássico, robusto e profissional.

Não foi por acaso que estes cinco adjetivos substantivos foram expostos precisamente nesta ordem; com efeito, se modificássemos tal disposição, perderíamos todo o resultado da pesquisa. Estas cinco palavras devem de fato ser, interpretadas no mesmo sentido em que se interpretam os grupos de deputados sentados no hemiciclo parlamentar, isto é, da extrema esquerda à extrema direita, passando pelo centro. Em outras palavras, a população do puro-sangue contém, justamente como a humana, seus revolucionários, seus progressistas, seus moderados, seus radicais e seus reacionários.

Posto o raciocínio nestes termos, poderá parecer um contra- senso que eu tenha, por exemplo, classificado Phalaris, Nearco e Hyperion entre os brilhantes, que seriam, afinal, os revolucionários, mas na realidade a definição tem fundamento, porquanto eles são os principais responsáveis pela revolução nas posições do predomínio inglês em favor da França; são indivíduos brilhantíssimos, com grandes capacidades transmissoras, mas jamais se pode contar com seus descendentes típicos para enfrentar provas realmente severas, nas quais, ao contrário, já há muitos anos, vêm triunfando os vários descendentes de Teddy, Rabelais ou Vatellor, que os franceses sabem produzir em fluxo permanente. Estes últimos, na linguagem por mim proposta, pertencem à centro-direita, ou seja, ao grupo dos radicais (geralmente, nas discussões políticas, consideram-se os radicais como homens de esquerda, mas é uma ilusão).

Analogamente, um Son-in-Law, um Hurry On, um  Precipitation, um Alycidon, trazem em si as características de um extremo conservantismo, porquanto, não conseguem, a não ser rara e esporadicamente, escapar ao esquema rígido e bem definido, que os faz protagonistas de determinadas provas em determinadas distâncias, como é demonstrado pelo fato de que, só em 1963 no Derby Italiano foi inscrito entre seus vencedores o nome de um descendente de Son-in-Law, chamado Braccio da Montone, gerado, contudo, por um garanhão francês Vandale, no qual as primigênias qualidades de solidez a toda prova combinaram-se com o ecletismo francês.

O mesmo acontece com os dois grupos dos intermediários e dos clássicos, que correspondem à centro-esquerda e ao centro, ou seja, aos progressistas e aos moderados. Quantas vezes não se falou da diferença entre os dois irmãos próprios Fairway e Pharos?

Pois bem, Fairway é um revolucionário um tanto perigoso, enquanto Pharos é simplesmente um progressista de notáveis qualidades individuais. O uso de Fairway reserva sempre surpresas amargas; de Blue Peter, que serviu principalmente para produzir modelos magníficos de cavalos de montaria, Tesio soube extrair Botticelli, que porém era um cavalo bem difícil de ser utilizado, e de Botticelli nasceu Antelami, que naufragou no St. Leger de Doncaster de uma maneira que nem sequer conseguimos imaginar pudesse acontecer com um Ribot ou um Tenerani.

Ao contrário, quem usa Pharos, sabe que pode contar com um certo resultado mínimo garantido e algumas vezes tem a agradável surpresa de ver superado esse mínimo. Assim, o uso de Bozzetto, Signal Light, Brueghel, etc., produziu resultados animadores nos mais diversos ambientes e até mesmo de El Greco, que, em termos imediatos, foi um malogro devido à sua fragilidade intrínseca, mas que mereceu uma reprodutora que deu origem a Ribot, que foi muito além da expectativa.

No centro de nosso alinhamento, encontramos justamente os clássicos, ou seja, os que realizam o perfeito equilíbrio, que, como todos sabem, é coisa muito rara e de fato, durante todo este século, pouquíssimos produtos pertencentes a um número de estirpes ainda mais restrito conseguiram elevar-se a este cobiçado pedestal: 

1) Swynford, Blandford, Blenheim; 

2) Rock Sand,Tracery;

3) Gainsborough; 

4) Tourbillon; 

5) Count Fleet;

6) Bull Lea; 

7) Prince Rose;

e isto no que diz respeito aos únicos chefes-de-raça por mim considerados como tais e prejudicar as atualizações que estou preparando.

Mas, como o hemiciclo parlamentar e a própria sociedade não poderiam viver apenas de expoentes de centro, também o puro-sangue não poderia viver apenas de sumidades  clássicas. Um produto com pedigree inteiramente baseado cm Blandford ou em Gainsborough seria talvez uma perfeita peça de museu, aias faltar-lhe-ia ainda algo para ser realmente vivo. Este "algo" deve provir da colaboração de todos os grupos genealógicos e, por esta razão, ouso esperar que a escolha de um número suficiente de chefes-de-raça, por dosagens, expoentes dos cinco grupos, possa servir para individualizar com precisão maior, a priori, o tipo de cavalo que se deseja produzir. Com isto não pretendo dizer que a dosagem em si e por si permite conhecer por antecipação se o resultado será um derby-winner ou um handicapper, mas apenas que a dosagem, observada e aplicada em muito tempo dentro dos limite da lógica e do bom senso, deverá, necessariamente, aproximar de tudo o que foi precedentente programado, segundo as intenções e necessidades do criador.

É verdade que este resultado também pode ser observado empiricamente, pelos criadores que cruzam suas reprodutoras com "o que há de melhor ao mercado", porém, corre-se o risco de seguir demais a moda e a moda faz brincadeiras de mal gosto na criação do puro-sangue porque, como tem sido fartamente demonstrado, pode fazer que o concorrente estrangeiro vença importantes provas das competições internacionais nas quais a derrota do país hóspede não é representada pelos milhões do prêmio que vão para o exterior, mas pelo incremento do valor do mercado dos produtos do país convidado, que significa uma automática perda de possibilidades por parte do pais hóspede no sentido de fazer valer os mesmos preços no exterior no mesmo momento, considerando a enorme diferença de valor do mercado existente em qualquer momento e o pais entre o primeiro e o segundo colocador em unia grande prova internacional.

Tomemos, como exemplo, o pedigree de uma potranca de êxito, Claudia Lorenese. Nele encontramos 30 chefes-de-raça, entre os quais 5 brilhantes (Cicero, Phalaris 2x, Nearco, Hyperion), 6 intermediários (Havresac II 4x, Pharos, The Tetrarch), 3 clássicos (Gainsborough, Blandford, Swynford), 13 robustos (Rabelais 5x, Spearmint 4x, Chaucer 2x, Sunstar, Teddy), e 3 profissionais (Hurry On 2x, Rayardo). O diagrama de Claudia Lorenese, portanto, é 5-6-3-13-3, ou seja, um pedigree robustamente assentado sobre as meias atas e, entre estas, com predomínio esmagador da centro-direita, isto é, presumivelmente, da tenacidade, da duração, do fundo. As alas, entretanto, vêm a ser um tanto fracas e, principalmente, o centro é fraco. Uma dosagem ideal, com efeito, seria 5-5-5-5-5 e, embora esta fórmula seja teórica e dificilmente realizável, contudo, com cruzamentos oportunos e sucessivos, seria possível chegar a uma aproximação e, cai todo caso, a um equilíbrio entre as cinco partes componentes.

O índice de consistência de Claudia Lorenese é de 5 : 5 = 5, isto é, mais do que suficiente pala uma campanha plenamente satisfatória, especialmente tratando-se de unia fêmea. Convém notar que todas estas considerações poderiam ser feitas no momento de decidir o cruzamento entre os pais de Claudia Lorenese: Tissot e Torre Paola.Não há, portanto, nenhum critério a posteriori, mas si uma avaliação a priori das consequências possíveis prováveis do próprio cruzamento. E mais: este exame a priori indica que, dos 30 chefes-de-raça da contagem, apenas 8 são trazidos pelo pai Tissot e cerca de 22 pela mãe Torre Paola.

A tendência à centro-direita existe, portanto, na reprodutora e pretendeu-se corrigi-la restabelecendo um certo equilíbrio clássico mediante o cruzamento com Tissot. Com efeito, se examinarmos o pedigree de Torre Paola do ponto de vista convencional, leremos a confirmação, por assim dizer, organológica: Star of Gujrath e Ninfa, de Cola D'Amatrice e Paranzelia, de Isso e Nacline, de Nesiotes e Naushon, de Burne Jones.

Os nomes da sequência Cola D'Amatrice-Isso-Nesiotes-Burne Jones são justamente elementos de centro-direita; nenhum deles é, individualmente, um garanhão chefe-de-raça, mas todos são portadores de características utilitárias. Acontece, porém, que Tissot, em têrmos genealógicos, é portador de elementos mais sólidos do que clássicos: de fato, seu diagrama é 1-2-0-4-1, isto é, também mais forte nas meias alas do que no centro, faltando-lhe, aliás, elementos clássicos e residindo sua força justamente no fato de que pode constituir um válido outcross com todas as reprodutoras já saturadas de elementos clássicos.

Pode-se supor, portanto, que ambos os partners deste cruzamento possam obter resultados ainda mais brilhantes, conjugando-se, respectivamente, unia reprodutora e um garanhão de características mais marcadamente clássicas. Mas este resultado será alcançado da mesma forma estudando-se um cruzamento adequado para Claudia Lorenese. Nesse caso, pode-se escolher um garanhão mais forte no centro do que nas alas e o resultado do cruzamento será um produto com um diagrama mais equilibrado e, ao mesmo tempo, com uma grande riqueza de presenças de chefe-de-raça.

Este processo é estranhamente simples e praticável por quem quer que seja com a máxima facilidade, mas, ao mesmo tempo, deixa certa margem à apreciações individuais, evitando o mecanismo excessivo de certos cálculos baseados na distância média dos pais e antepassados e que pretendem especificar quanto fundo, quanto meio-fundo ou quanta velocidade terá um cavalo em termos de metros ou jardas. Em sua base, naturalmente, existe o pressuposto de que a divisão dos chefes-de-raça em cinco grupos seja fundamentalmente exata e que os indivíduos escolhidos para formar os grupos sejam os corretos. Como se trata de uma escolha sugerida por um critério puramente pessoal, não é infalível, mas nada impede que cada criador, preocupado com o futuro de seu negócio, forme uma tabela pessoal, que poderá divergir da minha em escala maior ou menor.

Ao mesmo tempo, quero repetir que minha escolha de garanhões chefes-de-raça segue um critério critico e não estatístico e que nunca perdi de vista a noção de que o estudo do produto em si é mais importante do que o estudo de qualquer linha hipotética ou sucessão dinástica que, em termos gerais, com frequência é mais uma ilusão do que uma realidade. Com efeito, pode-se notar que pai e filho pertencem muitas vezes a grupos diversos: Swynford, Blandford e Blenheim são todos considerados clássicos, mas Alycidon encontra-se no grupo dos profissionais. Teddy acha-se entre os robustos, mas Bull Lea está entre os clássicos. Bayardo está entre os profissionais, mas seu filho Gainsborough está entre os clássicos e o filho deste, Hyperion, entre os brilhantes. Da mesma forma, o brilhante Nearco é filho do intermediário Pharos e da reprodutora, Nogara, filha do intermediário Havresac II, e, se no futuro for preciso acrescentar outros nomes à lista, provavelmente o filho de Nearco, Mossborough, merecerá um lugar entre os clássicos. Não existe, portanto, direitos divinos em minha lista, mas um exame individual que, todavia, necessita uma atualização constante. Estes instrumentos de medida exigem, com efeito, uma reavaliação continua e por essa razão a escolha de nomes suplementares impõe-se desde já, como espero apresentar no próximo capítulo.


(continua)





sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Varola - Análise de tendências - 7ª parte





Lydia e Frederico Tesio.




(continuação)


A aplicação dos 50 nomes de garanhões chefes-de-raça às dosagens atualizadas dos animais clássicos perminitiu-nos verificar que, em média, um pedigree contém de 20 a 25 nomes de chefes-de-raça e que a sua distribuição ideal seria um diagrama de tipo 5-5-5-5-5 ou 4-4-4-4-4, indicativo de equilíbrio e de uma pluralidade de influências genéticas no próprio pedigree. Entretanto, este equilíbrio raramente é alcançado na prática e, em certos casos o número de 50 chefes-de-raça escolhidos para a dosagem não é suficiente para fornecer une retrato autêntico do indivíduo examinada, razão pela qual é necessário escolher outros nomes para completar o valor da unidade de medida usada.

Estes nomes acrescentados podem ser obtidas simplesmente juntando-se garanhões mais recentes à lista original, mas, mesmo assim, a dosagem não poderia ser calculada com equidade nos casos em que as fundamentais influências passadas não sejam oportunamente tomadas em consideração; consequentemente, a ampliação da lista deverá ser obtida em duas partes uma que compreenderá garanhões do passado que, por razões diversas, não foram integrados à lista original e outra que compreendera garanhões recentes ou, pelo menos, nascidos depois de 1940. O primeiro grupo em acréscimo compreenderá vinte e cinco nomes, dez dos quais serão dos assim chamados "pais de reprodutoras", um tipo que não foi considerado na lista original. O segundo grupo em acréscimo compreenderá também vinte e cinco nomes. Os acréscimos compreenderão, portanto, um total de cinquenta nomes que, adicionados aos  cinquenta chefes-de-raça originais, formarão um total geral de exatamente cem nomes, um limite além do qual a pesquisa se tornaria demasiadamente complexa. Por outro lado, o  desenvolvimento quantitativo das corridas e da criação no mundo, nos últimas vinte anos, foi de tal vulto que mesmo cinquenta nomes a acrescentar não serão muito difíceis de ser encontrados, porquanto devem abranger, com as devidas proporções, todos os países em que a criação foi suficientemente desenvolvida, de forma que a dosagem possa ser estudada sobre os pedigrees de qualquer proveniência. Quanto mais se amplia o campo da pesquisa » mais se encontram garanhões com credenciais quase idênticas. Minhas escolhas obedecem, por essa razão, e em vários casos, as diveras alternativas disponíveis.

Para exemplificar o problema de calcular a dosagem dos pedigrees com equidade, tomemos ao acaso Armistice, 1959, vencedor do Grand Príx de Paris. Ele tem quatro correntes de Phalaris, urna das quais através de Fairway, totalizando assim cinco pontos na seção brilhante, enquanto as presenÇas de outros chefes-de-raça são 14 (Rabelais, Blandford, Swynford, Solario, Gainborough, Bayardo 2x, Teddy, Son-in-Law, Dark Ronald, La Farina, Chaucer 2x e Sunstar) com um índice de consistência de 14.5 = 2,8, que parece insuficiente para caracterizar seu tipo. Porém, se concedêssemos pontos ulteriores a seu pai Worden, a seu avô WiId Risk, a seu avô materno Vandale e entre seus outros antecessores, a Bruleur e Sardanapale, todos nomes muito importantes, alcançaríamos urna proporção de 5 a 19, com um índice de consistência de 3,8, que estaria evidentemente mais próximo da realidade.

Este ajuste do índice por meio do uso de nomes adicionais torna-se necessário também a todos os pedigrees que contêm o nome de Tourbillon. Este é o único garanhão de sua linha compreendido entre os 50 garanhões chefes-de-raça originais, enquanto as outras linhas contam com três ou quatro nomes consecutivos (ex.: Phalaris Pharos - Nearco - Nasrullah, ou Swynford - Blandford - Bienheim),com o resultado de que pedigrees fortemente baseados em Tourbillon, que são encontrados com frequência, especialmente na França, não são facilmente interpretáveis em termos de dosagem, porquanto o próprio Tourbillon compreende o nome de um único outro reprodutor da série original (Rabelais) em seu pedigree razão pela qual um cavalo inbreed sobre Tourbillon possui apenas quatro nomes elegíveis, que não são suficientes para caracterizar um inbreeding deste tipo.

Esta estirpe não é somente básica da criação francesa, mas adquiriu prestígio mundial, razão pela qual será preciso encontrar nomes adicionais para individualizá-la claramente. Um destes nomes será, naturalmente, Djebel, que em termos genealógicos é o mais importante e o mais geograficamente difundido de todos os filhos de Tourbillon, um outro nome nome deverá ser escolhido entre o pai de Tourbillon, Ksar, e o avô, Bruleur. Não só Bruleur compreende uma porção mais ampla de população equina do que Ksar, mas é também o mais importante dos dois em termos absolutos; com  efeito, pode-se afirmar que Bruleur seria, históricamente, um reprodutor importante, ainda que Ksar jamais tivesse existido, enquanto é improvável que Ksar fosse hoje um elemento importante não fosse por Tourbilion. Existe porém uma marcante diferença entre Bruleur, Tourbillon e DjebeI: o primeiro pode ser considerado um fator de reforço no        pedigree, e, portanto, deverá ser classificado entre os robustos, enquanto Tourbillon pertence ao grupo clássico e Djebel, por sua vez, deverá ser colocado no grupo dos intermediários, embora também fosse apropriada sua classificação entre os brilhantes.

Traduzindo em termos práticos o que foi dito acima, o pedigree do garanhão Hugh Lupus teria, com a lista restrita, apenas seis nomes elegíveis (Tourbilion 2x, Rabelais 2x, Bayardo, Teddy), enquanto uma lista ampliada eleva estes nomes a 10 (mais Bruleur 2x e Djebel), fornecendo assim um quadro mais completo e especialmente util quando se compara a dosagem da reprodutora a ser enviada à cobertura com o garanhão.

Ajustes análogos serão necessários no que diz respeito aos vários ramos de St. Simon, que voltaram ao auge nos últimos anos. Só o de Chaucer estava bem representado na lista original, com o próprio Chaucer, Vatout e Bois Roussel e, no máximo, poder-se-á acrescentar Vatellor, cuja inclusão, aliás, me foi solicitada por vários correspondentes, mas é importante reexaminar os três ramos de Rabelais, Persimmon e Florizel lI.

Rabelais é também representado por Havresac II, mas a extraordinária sequência que tem origem neste ultimo dá motivo a que não se possa ignorar Tenerani e Ribot, e também Traghetto, que foi o mais importante expoente de Cavaliere d'Arpino na raça. Além disso, o ramo de Rabelais para Rialto também deve ser considerado por mérito de Wild Risk e Worden. A linhagem de Persimmon, era representada na origem por Prince Rose, mas os descendentes de Prince Rose estabeleceram um domínio clássico tão forte nos últimos anos que deverão ser incluídos na lista e é difícil escolher entre Prince Chevalier, Prince Bio, Sicambre e Princequillo, que possuem credenciais impressionantes na Inglaterra, França, Estados Unidos e alhures.

A linha de FlorizeI II só é importante em função de Massine e de seu filho Mieuxcé, mas em um panorama global de 100 garanhões nem um nem outro pode ser ignorado. Massine é um poderoso fator de robustez na criação francesa, enquanto Mieuxcé alcançou uma posiçao de proeminência através de suas filhas. Surge aqui o problema dos "pais de reprodutoras", que não foram considerados na lista original. Garanhões como Bachelor's Double e Clarissimus adquiriram fama eterna exclusivamente através do êxito de suas filhas e é extraordinário que suas influências positivas nos pedigrees sejam ainda sentidas, porquanto remontam, respectivamente, a cerca de sessenta e cinquenta anos atrás. Entretanto, no pedigree do "derby-winner" italiano Braccio da Montone o nome de Clarissimus surge, não além da terceira geração, como pai da avó do vencedor Bayuk. Na América do Norte há vários nomes de pais de reprodutoras a serem considerados seriamente, dos quais os mais ilustres são Sir Gallahad III, War Admiral e Mahmoud.

Além disso, não se pode desprezar Navarro, que, como pai de reprodutoras, só cede o primeiro lugar a Ortello no turfe italiano contemporâneo a talvez como índice qualitativo é mesmo superior ao próprio Ortello. Com exceção de Bachelor's Double, que eu colocaria no grupo dos robustos, sou levado a classificar todos os outros no grupo clássico, pela absoluta excelência de sua contribuição genealógica.

Incidentalmente, apresentam-se duas interessantes observações. Uma é que os garanhões norte-americanos, que muito raramente são elegíveis para o grupo clássico como pais de vencedores, são, ao contrário, representados "ad abundantiam" no mesmo grupo clássico como pais de reprodutoras. Esta com efeito, é uma das peculiaridades das estatísticas norte-americanas. Sua lista de pais de vencedores lamentavelmente é condicionada a distância média de suas corridas, mais a lista de pais de reprodutoras da lugar nas primeiras posições apenas aos cavalos de primeirissimo plano e de indubitável qualidade clássica. A segunda observação é que, ao contrário, os garanhões francêses, que se  sobressaíram como pais de grandes vencedores nestes ultimos anos, não parecem contar com nenhum expoente importante entre os pais de reprodutoras, com exceção de Sardanapale e Massine, que, porém, pertencem ao passado, e de Mieuxcé, que, todavia emergiu nesta especialidade na  Inglaterra. lsto não implica em que sejam menos eficientes do que outros neste setor particular, mas antes que seu êxito como pais de vencedores foi de tal forma grande que não têm necessidade de ser qualificados especificamente como pais de reprodutoras.

O setor pais de reprodutoras não estaria completo sem Foxbridge, fator básico do desenvolvimento na criação da Austrália e da Nova Zelândia, cuja presença permitirá uma leitura mais cuidadosa dos pedigrees daquela parte do mundo. Da mesma forma, o já lembrado Sardanapale deverá ser incluído em consequência de sua presença intensiva e constante nos pedigrees clássicos, não obstante o transcurso de mais de cinquenta aros de seu nascimento. SardanapaIe pertence a uma linha excêntrica, que de outra forma não seria representada na lista, e seu único produto de grande valor  nas pistas foi Apelle, que, por sua vez, se tornou um nome obrigatório através de Tofanella e dos descendentes desta, Tenerani e Ribot. A influência de Apelle, que foi considerado um cavalo de grande robustez, capaz de suportar qualquer "training", é nitidamente perceptível na síndroma de seus      descendentes, através das grandes reprodutoras Tofanella, Tokamura e Trevisane, mas, além disso, Sardanapale aparece frequentemcnte nas seções inferiores dos pedligrees franceses.

Entre os cavalos do passado que conferem mérito particular a um pedigree e que agora devo levar em conta afim de preencher as lacunas da seleção original, já mencionei Djebel e Bruleur e agora devo examinar Sir Cosmo, Colorado, Equipoise e Man O'War, todos nascidos antes de 1930. Sir Cosmo demonstrou saber exercer uma influência muito mais profunda do que se poderia deduzir de sua sindroma exclusivamente brilhante e aparece frequentemente na seção inferior de muitos indivíduos importantes recentes, sem contar que é avô materno do ex-campeão mundial de somas ganhas, Round Table, por sua vez reprodutor de futuro. Além disso, vale para Sir Cosmo, ao contrario, o que foi dito a respeito de Tourbillon e Bruleur no caso de Armistice, ou seja, quando examinamos um pedigree de um velocista inglês desta linha dispomos apenas do nome de Panorama como contribuição para um índice de consistência realístico, mas o acréscimo de Sir Cosmo no setor brilhante permite naturalmente uma avaliação melhor. Pode-se, portanto, afirmar  que em um pedigree tendencialmente de velocidade pura, a presença de Sir Cosmo equilibra a dosagem, enquanto em um pedigree tendencialmente clássico ou robusto, sua presença fornece aquela pitada de brio que é sempre indispensável e desejável.

Colorado foi rapidamente esquecido em sua época porque não chegou sequer a completar sua segunda temporada de monta; entretanto, nenhum reprodutor jamais foi capaz de gerar tantos cavalas qualitativos e importantes em um período de tempo tão restrito. Todos os seus filhos e filhas voltaram agora ao cenário, especialmente nas seções inferiores dos pedigrees ingleses, com possibilidades de ulterior  desenvolvimento em vários países europeus e americanos. Quanto a Man O'War, ele se tornou em fator por assim dizer obrigatório nos pedigrees dos Estudos Unidos e nem deveria ser preciso comentá-lo, mas poder-se-ia objetar que sua linha já é suficientemente representada por seu pai Fair Play, membro do grupo originário, e por seu melhor filho, War Admiral, ora eleito entre os pais de reprodutoras. Porém, a importancia desta linha cresce com os anos em lugar de diminuir, razão pela qual creio que a inclusão dos três nomes é justa. Entre os produtos importantes nascidos depois de 1930 e antes de 1940, merecem menção especial Brantôme e Bahram, ambos filhos de Blandford e cavalos de corrida de primeiríssima ordem. Sua avaliação exata foi impossível antes de agora, porquanto Bahram funcionou em vários países com sucessos alternados e Brantôme também foi transferido durante a guerra, razão pela qual não se lhe deu grande    importancia até uma época muito recente, havendo aliás a tendência de considerá-los genealogicamente modestos, mas com o passar dos anos a situação modificou-se completamente. Aprecia-se hoje em seu justo valor o trio deixado por Bahram na Europa: Persian Gulf, Turkhan e Big Game, para não falar em outros bons elementos além-mar, enquanto Brantôme, além do êxito de suas filhas na reprodução reprodutoras, estabeleceu através de Vieux Manoir uma fonte aparentemente inesgotável de vencedores clássicos.

Acrescentando aos nomes propostas o anglo-americano  Heliópolis e o anglo-argentino British Empire no setor          brilhante, o anglo-argentino Full Sail e os norte-americanos Eight Thirty e Roman no setor intermediário e o norte-americano Alibhai no setor clássico, temos os 25 nomes adicionais do passado que nos seriam uteis. Futuramente, será útil ver quais poderiam ser os 25 nomes recentes. ou sejam, nascidos depois de 1940, necessários para completar a lista final dos cem garanhões mais importantes do século.


                                           Fim


Franco Varola


Tradução: Ricardo Imbassahy






quinta-feira, 1 de junho de 2023

Uma égua produz melhor produto após uma temporada de descanso?

   


Pimper's Paradise, em foto de Sylvio Rondinelli, é um exemplo de filho de égua vazia em temporada anterior.


Foi encontrado em exemplar da "The British Racehorse Magazine" de 1970, um artigo muito interessante. Atualmente, é cada vez mais raro encontrarmos estudos como este. Consequentemente, informações que possam ajudar na busca de melhores resultados na criação devem ser "garimpadas" em antigas publicações. Como o objetivo desse blog, é somar para melhores práticas dentro do universo da criação do PSI, esse artigo é apresentado para reflexão. 


Uma égua produz melhor produto após uma temporada de descanso?


Durante pesquisas na revista "The British Racehorse", entendi que seria interessante pesquisar se havia relação entre um animal apresentar alta classe nas pistas e nascimento depois da pausa de uma temporada de sua mãe, seja intencionalmente para descanso de ventre, por aborto ou mesmo por ter ficado vazia no período de cobertura.

Inicialmente pesquisei o Stanley Stud,  lar das grandes mães CANTERBURY PILGRIM, CANYON, DRIFT,  GONDOLETTE, SCAPA FLOW, SELENE e SERENISSIMA,  e encontrei os seguintes resultados para essas maravilhosas matrizes:

1 - Canterbury Pilgrim

1899 - produto morto de St.Serf, 

1900 - produziu CHAUCER (por St. Simon),

1906 - abortou gêmeos de Volodyovski,

1907 - produziu SWYNFORD (por John O'Gaunt),

2 - Canyon

1922 - vazia de Phalaris,

1923 - produziu COLORADO (por Phalaris).

3- Drift

1935 - vazia de Caerleon,

1936 - produziu HELIOPOLIS (por Hyperion).

4 - Gondolette

1914 - vazia de Swynford,  

1915 - produziu FERRY (Swynford),

1920 - descansou,

1921 - produziu SANSOVINO (por Swynford).

5 - Scapa Flow

1924 - vazia de Phalaris,

1925 - produziu FAIRWAY (por Phalaris),

1926 - vazia de Phalaris,

1927 - produziu FAIR ISLE (por Phalaris)

           1932 - vazia de Sansovino,        

           1933 - produziu ST. MAGNUS (por Sansovino).

6 - Selene

1929 - vazia de Phalaris,

1930 - produziu HYPERION (por Gainsborough).

7 - Serenissima 

1921 - vazia de Hainault,

1922 - produziu SCHIAVONI (por Swynford),

1925 - vazia de Swynford, 

1926 - produziu BOSWORTH (por Son-In-Law).


Aqui estão incluídos dois animais ganhadores dos 1.000 Guinéus, um dos 2.000 Guinéus, dois do Derby Stakes, três do St. Leger e um da Ascot Gold Cup. Esta lista representa uma alta proporção dos melhores cavalos de corrida e garanhões produzidos pela criação de Lord Derby, que, praticamente, criou todos os seus ganhadores, que atingiram entre 800 e 900 mil libras em somas ganhas. Encabeçando, por sete vezes, a lista dos proprietários de maior sucesso na Inglaterra e deixando no turfe uma influência marcantemente benéfica.


Também é apropriado considerarmos a extraordinária reprodutora FEOLA (égua de fundação do Royal Stud de nossa Rainha, uma autoridade em assuntos do PSI), como notável exemplo de sucesso após vários períodos de inatividade:


Feola, uma égua de temperamento violento, segundo dizem, produziu três de suas predominantes filhas nas seguintes circunstâncias:

1940 - descansou,

1941 - produziu KNIGHT'S DAUGHTER (por Sir Cosmo)

           1953 - descansou,

           1954 - produziu ROUND TABLE (por Princequillo).

1944 - vazia de Umidwar,

1945 - produziu ANGELOLA (por Donatello II)

           1949 - vazia de Hyperion,

           1950 - produziu AUREOLE (por Hyperion).

1946 - vazia de Hyperion,

1947 - produziu ABOVE BOARD (por Straight Deal)

           1955 - descansou,

           1956 - produziu ABOVE SUSPICION (por Court Martial).


Entre os campeões de nosso século, que se enquadram em nosso estudo, devemos mencionar dois ganhadores tríplice-coroados; ROCK SAND (em 1903) e BAHRAM (em 1935). 

Também se classifica POMMERN, que ganhou a tríplice coroa durante o período da guerra, em 1915. Foi um corredor muito bom, mas quase que insignificante como reprodutor.

Tanto ROCK SAND, como BAHRAM, conseguiram manter o seu prestígio de grandes ganhadores, quando levados para o haras. O nome do primeiro ainda continua em evidência, por meio de Papyrus, que aparece com destaque nos pedigrees modernos como o de Ribot e como avô materno de Man O'War (o maior cavalo de corrida dos EUA).

BAHRAM exerce uma influência permanente na criação, como pai de Big Game e Persian Gulf (ambos filhos de célebres éguas corredoras) e de reprodutoras da qualidade de Doubleton (avó de Meld, bisavó de Charlottown) e Mah Iran.

Mah Iran, é mãe de Migoli, um dos raros ganhadores ingleses, nos últimos anos, do Prix de L'Arc de Triomphe e avó de Petite Etoile, e leva-nos a considerar alguns outros exemplos interessantes no ramo "C" da Familia 9, que se destacou a partir da matriarca Lady Josephine.

Um ramo que produziu alguns brilhantes primogênitos: 

- LADY JUROR,

- ROYAL CHARGER e sua mãe, SUN PRINCESS,

- MAHMOUD,

- MIGOLI


Para maior ilustração do tema, pode ser apresentada a seguinte classificação para essa família:

Mumtaz Mahal

1927 - abortou gêmeos de Gainsborough,

1928 - produziu MAH MAHAL (por Gainsborough)

           1938 - descansou,

           1939 - produziu MAH IRAN (por Bahram)

                       1945 - descansou

                       1946 - produziu MOONDUST (por Stardust). 

1932 - produziu MUMTAZ BEGUM (por Blenheim)

           1938 - descansou,

           1939 - produziu DODOMA (por Dastur)

                        1946 - abortou gêmeos de Nearco,

                        1947 - produziu DIABLERETTA (por Dante).

1933 - descansou,

1934 - produziu RUSTOM MAHAL (por Rustom Pasha)

           1941 - produto natimorto de Nearco,

           1942 - produziu FILLE DU REGIMENT (por Nearco),

           1945 - vazia de Colorado Kid,

           1946 - produziu ABERNANT (por Umidwar).


Alguns destes nomes serão lembrados como membros brilhantes de uma velocíssima linhagem feminina. Mumtaz Mahal foi, sem dúvida, um fenômeno, enquanto que Lady Josephine era extremamente veloz. A última é um produto primogênito. Sua mãe, Americus Girl, nasceu um ano depois que Palotta, sua mãe, ficou vazia de Hackler. 

Parece quase evidente que nesta fascinante família exista um fator hereditário, quanto ao fato de uma égua produzir um filho de qualidade especial, após uma temporada de inatividade.


Pode-se observar, ainda, outra lista de celebridades, além dos exemplos já citados, de 1920 em diante, que parecem confirmar a ideia de que uma temporada de descanso é de grande importância para que uma reprodutora se restabeleça. Alguns dos nomes que se seguem poderão evocar, para alguns turfistas mais antigos, lembranças de ocasiões excitantes:

1 - Sun Worship

1921 - vazia de Lomond, 

1922 - produziu SOLARIO (por Gainsborough).

2 - Good and Gay

1921 - vazia de Tracery,  

1922 - produziu SAUCY SUE (por Swynford).

3 - WetKiss 

1922 - abortou de Hurry On, 

1923 - produziu CORONACH (por Hurry On).

4 - Popingaol 

1923 - vazia de The Tetrarch,

1924 - produziu BOOK LAW (por Buchan)

                        1932 - descansou,

                        1933 - produziu RHODES SCHOLAR (por Pharos).

5 - Trimestral 

1925 - produto morto por Rochester,

1926 - produziu TRIMDON (por Son-In-Law).

6 - Uganda

1928 - vazia de Zambo,

1929 - produziu UDAIPUR (por Blandford).

7 - Golden Hair

1928 - vazia de Tetratema, 

1929 - produziu ORWELL (por Gainsborough).

8 - Resplendent

1930 - abortou de Tetratema,

1931 - produziu WINDSOR LAD (por Blandford).

9 - Bongrace 

1939 - descansou, 

1940 - produziu RIBBON (por Fairway).

10 - Jiffy 

1940 - descansou, 

1941 - produziu OCEAN SWELL (por Blue Peter).

11 - Rosy Legend 

1941 - vazia de Colombo, 

1942 - produziu DANTE (por Nearco).

12 - Eclair

1942 - vazia de Hyperion, 

1943 - produziu KHALED (por Hyperion). 

13  - Art Paper

1943 - vazia de Felicitation,

1944 - produziu PETITION (por Fair Trial).

14 - Pasqua 

1949 - descansou,

1950 - produziu PINZA (por Chanteur).

15 - Bright Lady

1952 - vazia de Orthodox,

1953 - produziu GLADNESS (por Sayajirao).

16 - Indian Call 

1953 - descansou, 

1954 - produziu BALLYMOSS (por Mossborough) .

17 - Pirette

1953 - descansou,

1954 - produziu PRIMERA (por My Babu).

18 - Noorani

1955 - descansou.

1956 - produziu SHESHOON (por Precipitation).

19 - Turkish Blood

1956 - descansou, 

1957 - produziu VIENNA (por Aureole).

20 - Crepuscule 

1958 - produto morto de Alycidon,

1959 - produziu TWILIGHT ALLEY (por Alycidon).

21 - Life Sentence

1959 - abortou de Hornbeam,

1960 - produziu ONLY FOR LIFE (por Chanteur).

22 - Duke's Delight 

1959 - descansou,

1960 - produziu NOBLESSE (por Mossborough).

23 - Fair Edith

1961 - descansou,

1962 - produziu AUNT EDITH (por Primera).

Entre esses grandes ganhadores, em um período de 40 anos, pois o trabalho não pretende ser cansativo, encontram-se uma ganhadora dos 1.000 Guinéus, dois ganhadores dos 2.000 Guinéus, três do Oaks, cinco do Derby Stakes, cinco do St. Leger, seis da Gold Cup e três ganhadores do King George VI and Queen Elizabeth Stakes.


Como complementação dessas evidências, é um prazer referir-nos à atual égua dominante do cenário europeu, a grande campeã  PARK TOP: 

1º King George VI and Queen Elizabeth Stakes, 

1º Coronation Cup, 

1º Harwicke Stakes, 

1º Ribblesdale Stakes, 

1º Cumberland Lodge Stakes, 

2º Prix de l'Arc de Triomphe, 

2º Eclipse Stakes, 

2º Champion Stakes, 

2º Coronation Cup, etc,  

que nasceu um ano depois que sua mãe, NeIlie Park abortou, e consequentemente está ligada a este argumento.


por Cedric Borgnis


Nota do tradutor: Considerando o trabalho do autor, podemos citar, entre outros, à Buckpasser, Halo, Nijinsky, Nureyev, Danzig, Sadler's Wells, Sunday Silence, Dubawi, Acclamation, Shamardal, Dark Angel, Sea The Stars, Wootton Bassett, Invincible Spirit, Churchill, Kitten's Joy e Frankel, como alguns exemplos de filhos cujas mães ficaram vazias na temporada anterior.  


Tradução: Ricardo Imbassahy